As manifestações programadas têm reivindicado a atenção para objetivos difusos, que não dependem de ações simples e dirigidas (corrupção, violência, saúde) e, sim, de políticas institucionalizadas de Estado ou objetivos específicos característicos do interesse de algum segmento econômico ou social, ou mesmo de agrupamentos de moradores, e que dependem de ações temporais em resposta à demanda do momento (terceirização, passe de ônibus, policiamento) – política de Governo.
É difícil discernir ou mesmo estabelecer diferenças entre políticas de Governo e de Estado, exatamente porque às vezes os princípios se confundem, um apresentando elementos conceituais característicos do outro e vice-versa, ou porque muitos, inclusive nossos representantes legislativos, acreditam na similitude de ambos, visto que um governo legitimamente constituído representa o Estado.
A diferença está em que uma Política de Governo é instituída unilateralmente por um governo em um período, enquanto a Política de Estado resulta da conscientização da sociedade e de sua classe política representante sobre um assunto, e cuja ideia e motivação encontram-se fortemente institucionalizadas, sendo mantidas em administrações sucessivas sem que haja distorção dos princípios.
Políticas de Estado são aquelas que envolvem os diversos segmentos da estrutura administrativa e dos poderes constituídos, que culminam com a aprovação do Legislativo sobre um assunto que necessita de discussão, pesquisa, estudos técnicos, simulações, análises de impacto e de risco em vários sentidos, sobre os efeitos econômicos ou orçamentários estimados em todos os segmentos sociais. Exatamente pela característica burocrática das consultas públicas e das discussões com diversas correntes ideológicas e de interesses, bem como a mudança de paradigmas, a interferência nos costumes e culturas e as alterações de normas, uma política de Estado depende de prazos extensos desde sua idealização à implantação, com o objetivo de ser duradoura.
São assim consideradas políticas sistêmicas ou estruturais nos setores da defesa, das relações exteriores, da economia, da segurança, do meio ambiente, da educação e da tecnologia dando ênfase maior aos aspectos conceituais em maior grau do que os operacionais, e dependentes de colaboradores habilitados e qualificados para os estudos capazes de definir as diversas políticas necessárias para a nação, compartilhadas com os estados e os municípios.
As Políticas de Governo, ao contrário, estão ao sabor da decisão do Executivo e resultante de um processo simples de formulação e implantação de medidas para atender às demandas de política interna ou partidária, em função da situação econômica ou pressão política parlamentar ou mesmo externa, mas com viés doméstico. O trajeto desde a identificação do evento até a aplicação da política definida como adequada é simples e curto e geralmente permanece restrito ao plano administrativo, ou na atribuição dos setores que compõem a administração em qualquer esfera de poder. Elas dependem da situação do momento são quase sempre de natureza conjuntural, ou dirigidas a grupos restritos, ou ações em resposta a demandas temporais.
Essa distinção interessa a nós mesmos de modo que saibamos ou ensinemos que para alcançar um objetivo, das manifestações, por exemplo, é preciso conhecer de quem é a competência, do quê e para quê caso contrário estaremos apenas diante do muro das lamentações. A importância dessa diferença está em sabermos que ela existe e que embora não precisamos eleger estadistas, desejamos pelo menos que os governantes eleitos pensem grande, coloquem as administrações ao serviço dos contribuintes e não se servindo por meio de políticas ineficientes, ou que beneficiem os grupos financiadores, colocando-nos como avalistas a cada mazela.
Nossos representantes têm dificuldades em entender e afirmam cada qual por si próprio que vai criar uma UPP, dar autonomia ao Banco Central, baixar a inflação, fazer um aquário, restabelecer o trem do Pantanal, preocupar-se com questiúnculas funcionais de afetos e desafetos partidários, como se ainda estivessem em campanha, resolvendo problemas como síndicos de bairros ou num ambiente doméstico. Exatamente por acreditarmos que a tarefa de todo governante esteja reduzida a mesquinhez de saber tudo que ocorre a sua volta continuamos a reivindicar por ações difusas ou muito específicas.
Todo estadista é um governante, mas nem todo governante é estadista, a menos que troque suas preocupações domésticas normalmente visando às próximas eleições, por um bem maior voltado às futuras gerações, por meio de políticas de Estado.