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Hermano Melo: "A entrevista de Mujica"

Jornalista e Escritor

Redação

26/04/2015 - 00h00

Em entrevista recente (23/04) concedida à BBC Mundo, o ex-presidente uruguaio José Mujica, agora senador e prestes a completar 80 anos, deu duas declarações polêmicas ao se referir ao Brasil. Primeiro, afirmou que “algo doentio acontece na política brasileira”, no que diz respeito aos problemas de corrupção e à cisão entre o governo de Dilma Rousseff, em seu segundo mandato, e o Congresso eleito em 2014. 

Depois, que o tráfico de influência é “uma tradição” no Brasil, já que os governos “têm que fazer o impossível para conseguir a maioria parlamentar de alguma maneira”. E completou: “Não digo que os fins justifiquem os meios, quem diz é Maquiavel. O que digo é que isso é uma doença que existe há muito tempo na política brasileira”. 

Sobre a corrupção, Mujica disse que ela afeta “a todos” na América Latina, mas “quem gosta muito de dinheiro deveria ser afastado da política. Tem que estar na indústria, no comércio, não na política”. E completou: “A vontade de ter bens materiais não se relaciona bem com o serviço público”. Ele acredita ainda que é preciso considerar o papel dos agentes externos ao governo na corrupção. “Para que haja corruptos, também deve haver um agente corruptor, não nos esqueçamos disso”. 

É claro que em linhas gerais Mujica tem razão ao apontar os principais problemas que o Brasil enfrenta no momento tanto em relação à corrupção quanto ao relacionamento entre o executivo e o parlamento brasileiro. Mas é preciso colocar algumas ressalvas. 

Em primeiro lugar, faz parte do exercício democrático, o embate entre executivo e legislativo visando encontrar um desiderato que atenda a maioria da população do país em questão, quer se trate de Brasil ou de qualquer outra democracia do mundo ocidental. Evidente que as decisões pendem para o lado que tem maior poder político no momento – no caso do Brasil, a direita está em ascensão – daí, por exemplo, a recente aprovação da Lei da Terceirização na Câmara Federal.

Quanto à corrupção, não se pode dizer que “quem gosta de dinheiro deve se afastar da política ou ir para a indústria ou comércio”. Todos os setores da sociedade são agentes políticos! Como diz, aliás, o próprio Mujica, ‘para que haja corruptos deve haver um agente corruptor’ – neste caso, em geral, políticos inescrupulosos e/ou alguém ligado ao setor empresarial com muita ganância por dinheiro e trânsito político no Congresso Nacional. E parece que foi justamente isso que ocorreu no caso da Petrobras, de fastidiosa lembrança.

De volta, porém, às excentricidades, Mujica disse ainda em sua entrevista que sua cadela de estimação, Manuela, foi a “integrante mais fiel” de seu governo (!). E não se esquivou nem de questões difíceis fora do âmbito político, quando um participante argentino da entrevista perguntou: Beatles, Pink Floyd ou Rolling Stones? “Diga a ele, respondeu Mujica, que sou analfabeto no tema, porque sou ‘tangueiro’ de alma. Mas feita essa ressalva, prefiro os Rolling Stones”. 

 

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