Em plena época de aumentos, estamos acompanhando, portanto, o estopim de uma crise: as ameaças de greves em decorrência dos cortes de gratificações e das reivindicações não atendidas de aumentos
A crise econômica no Brasil impôs duros golpes aos trabalhadores neste ano. Sem dúvida, o mais pesado está relacionado ao risco iminente de demissões. Com a produção industrial de Mato Grosso do Sul estagnada há aproximadamente um ano, 29,8% dos empresários do ramo planejam diminuir a quantidade de funcionários nos próximos seis meses. Seria essa a alternativa para tentar equilibrar os novos gastos, decorrentes dos aumentos estabelecidos pelo governo federal. O mesmo levantamento, elaborado pela Federação das Indústrias de MS, mostra ainda que 54,4% não pretendem fazer contratações nesse mesmo período. Os números preocupam ainda mais no momento em que são contrapostos aos dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). Foram criadas apenas 48 vagas de empregos, pior saldo dos últimos 12 anos, mais uma repetição da sequência de recordes negativos apontados nos três primeiros meses deste ano.
Assim, mostra-se a dificuldade para manter empregos ou conquistar novos postos de trabalho.
A arrecadação está praticamente estacionada. No primeiro trimestre de 2015, por exemplo, a receita de tributos federais em Mato Grosso do Sul teve avanço de apenas 0,73%, irrisório diante da média de anos anteriores, com crescimento de até 15%. É mais um dos reflexos do esfriamento da economia, no qual o consumidor se vê obrigado a comprar menos. Comércio e indústrias sentem diretamente esse efeito e não conseguem obter o retorno esperado de seus produtos. Esse cenário conturbado tem consequências praticamente inevitáveis. Com menos dinheiro em caixa, governos estaduais e municípios não conseguem conceder reajustes salariais. Em plena época de aumentos, estamos acompanhando, portanto, o estopim de uma crise: as ameaças de greves em decorrência dos cortes de gratificações e das reivindicações não atendidas de aumentos. Sem dúvida, a administração municipal tem pela frente uma das negociações mais complicadas dos últimos anos.
O Dia do Trabalhador, portanto, apresenta contradições com a ideia simbólica de algumas comemorações, com festas populares e até passeios ciclísticos que se tornaram tradicionais.
Entretanto, a realidade atual nos transporta às verdadeiras origens da data no Brasil, as de protestos contra as dificuldades econômicas e cobranças por garantias de direitos dos trabalhadores. É preciso, porém, ponderar que as manifestações precisam atingir os verdadeiros alvos dessa luta.
Sofremos atualmente os reflexos de equívocos graves da política econômica nacional e, infelizmente, as chances de reverter os erros também atingem os trabalhadores, por meio do ajuste fiscal. Há, ainda, os temores com o debate acerca da terceirização, aprovada recentemente pela Câmara de Deputados.
O quadro apresentado acima mostra momentos de dificuldades vivenciados pelos trabalhadores, com muitas batalhas ainda a serem travadas. Todos sofrem com os efeitos da crise: empregadores que não conseguem atender aos apelos e temem os prejuízos da greve; e os trabalhadores, com as incertezas sobre suas remunerações. Os sinais de alerta vinham desde o começo do ano, mas os governantes não conseguiram reagir nas mesmas proporções para superar os obstáculos.