Artigos e Opinião

OPINIÃO

Em resposta ao discurso de que "tem que se sujeitar"

Maria Aparecida Alves Ribeiro - Professora mestre da rede pública de ensino

Redação

07/05/2015 - 00h00

Ao ler o jornal Correio do Estado de 1º de maio, a matéria que mais me chamou atenção foi “Crise financeira e falta de diálogo indicam maio de negociações tensas”, não que seja um título novo, pois a prática de negociação salarial, condições de trabalho, “luta pelos direitos” é sempre “o mesmo do mesmo”, ou seja, desde os tempos de figuras políticas consideradas célebres e outras nem tanto, o período é de declarações infelizes e que procuram persuadir a opinião pública sobre o valor das profissões no sistema econômico vigente. 

Que valor tem a sua profissão? Em que condições a desenvolve? O segmento da sua carreira tem um sindicato com uma parte jurídica bem estruturada e forte que o representa? A declaração do titular da Semad, Wilson do Prado, “quem ingressa no serviço público tem de se sujeitar às condições do serviço público e não tentar impor o que acontece na iniciativa privada”, palavras do senhor Wilson, faz com que se queira observar melhor a problemática da valorização do profissional de carreira. Essa fala, na matéria citada, provocou em mim uma reflexão.

No capitalismo, cria-se uma ilusão para o sujeito que um discurso não depende do outro. O que não é verdade, tudo tem relação, principalmente, porque tem em comum a ordem material: o capital. O que acontece no Estado do Paraná, por exemplo, é uma simbologia de como as lideranças do capital lidam com as questões de “democracia” no discurso da negociação pelos direitos do trabalhador. Segundo Althusser (1985, p. 35), os aparelhos repressores de Estado estão prontos a servir quando há uma ameaça de perda da ordem. O que vemos, então, é a ausência de governo do povo, no sentido de tentativas de atender às reivindicações dos direitos trabalhistas. Para perceber a ausência de democracia é preciso “estudar”. Só quem tem acesso à instrução política, que é buscada por meio de debates e um estudo aprofundado sobre o funcionamento da sociedade, pode mudar suas condições de trabalho na sociedade. É aquele sujeito que é incentivado a buscar o conhecimento.

No momento em que o pai de um jovem ouve que o filho “dele terá que se sujeitar” quando estiver no mercado de trabalho, precisa também refletir e se perguntar a quem interessa esse discurso.

Acompanhei ao longo da carreira, na escola, a família que se dedicou junto a esse jovem, seja ele, por exemplo, o técnico administrativo, o médico, o advogado, o engenheiro, o arquiteto, o gerente responsável pelo seu setor, o professor, o policial, o bombeiro, o enfermeiro, o jornalista e todas as outras profissões que sustentam o sistema econômico vigente. Verifica-se que é uma luta diária da família para construir um profissional compromissado e cumpridor de seus deveres. 

E como resumo de toda a reflexão, chegaremos ao capital: quanto menos conhecimento, mais empobrecimento tecnológico, de pesquisa, de direitos humanos, como podemos ver pela mídia, de incentivos a muitos segmentos de carreira e de remuneração. Por outro lado, é necessário olhar para quem nos representa, abra a receita, mostre à sociedade quanto recebe por mês uma posição-sujeito do Judiciário. O juiz vale o quanto ele estudou e continua estudando. Dessa maneira, o que se objetiva valorizar aqui é o estudo, o conhecimento para que se possa questionar lideranças trabalhistas que não reconhecem como legítimas as reivindicações dos trabalhadores aqui mencionados. Há que se fazer uma reflexão com os segmentos das profissões sobre o papel ideológico dos sindicatos, de como articular a parte jurídica de uma maneira a elaborar ações objetivas que sejam legítimas perante o Judiciário. 

Então, caro leitor, você que é pai e que é filho, a quem interessa o discurso da negociação pelos direitos trabalhistas no momento histórico? Eu não me recordo de ver em algum suporte textual o juiz, o Poder Judiciário, sendo levado ao discurso da humilhação de que ele tem que “se sujeitar às condições do serviço público”, uma vez que toda sociedade sabe que o Judiciário também está a serviço da sociedade, é um funcionário público e é muito bem remunerado para desempenhar a sua função.

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