Todo esse cenário da Lava Jato e do aperto financeiro - hoje encarado como devastador - pode refletir em uma campanha mais realista, onde o dinheiro não dite as principais regras na hora da escolha.
As cifras milionárias gastas todos os anos nas campanhas eleitorais surpreendem e motivam questionamentos. Afinal, nenhuma empresa irá ajudar determinado candidato apenas por caridade.
“Não há almoço de graça”, expressão comum e utilizada pelo ex-diretor da Petrobras, Paulo Roberto Costa, durante depoimento a deputados que integram a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI). A tendência, porém, é que os escândalos relacionados ao envolvimento de empreiteiros e políticos no esquema de corrupção da estatal contribua para um novo quadro na campanha do próximo ano. Os recursos ficarão mais escassos até mesmo em razão da crise financeira. Mas há também o risco de comprometimento e desgaste da imagem. Empresários não vão querer vincular seus nomes às legendas e candidatos que estão sendo alvos de investigações por desvios de recursos, pagamento de propinas ou lavagem de dinheiro.
Empreiteiros ficaram meses presos na deflagração da Operação Lava Jato, pela Polícia Federal. Alguns foram liberados pelo Supremo Tribunal Federal (STF) somente no último mês. Os envolvidos doaram altas quantias às campanhas de candidatos ou repassaram às legendas. Depois, constatou-se nas apurações e nas delações que os pagamentos de propina eram negociado com base nos valores dos contratos assinados. Os empresários tiveram de devolver recursos aos cofres públicos e também acabaram com verbas bloqueadas. Ficou constatada a existência de cartas marcadas, em que a concorrência em licitações era apenas simulada. Eram os empresários quem definiam, em reuniões secretas, quem seria o responsável por determinada obra.
As apurações do Ministério Público Federal evidenciaram que muitas das doações oficiais resultaram de propina. Assim, diante de todo esquema delatado pelos seus próprios integrantes, abriu-se precedente para as mesmas dúvidas concernentes a outros candidatos que também recebem quantias volumosas durante o período eleitoral. Os eleitores, certamente, terão mais motivos para questionar qual será a moeda de troca dos recursos que os políticos obtiveram. Direcionamento em licitações, favorecimento de informações para alavancar seus negócios ou até aditivos aos contratos já existentes, com cifras que, muitas vezes, triplicam os valores inicialmente contratualizados. Essas são apenas algumas das hipóteses que aparecem em escândalos de corrupção que, infelizmente, já assistimos em determinados setores do poder público.
Sem dúvida, os desdobramentos do petrolão devem inibir os grandes investidores de atender aos apelos de determinados candidatos. Pois, agora, têm ainda mais certezas sobre os riscos futuros que poderão enfrentar. A crise financeira também terá suas influências no pleito. Além da estagnação econômica, os prefeitos enfrentarão serveros cortes do Governo Federal justamente no ano em que precisam “mostrar serviços” para ajudar a convencer os eleitores. Grandes obras, portanto, não devem integrar a lista de feitos dos atual gestores, que mal estão dando conta de pagar salários em dia. Todo esse cenário da Lava Jato e do aperto financeiro - hoje encarado como devastador - pode refletir em uma campanha mais realista, onde o dinheiro não dite as principais regras na hora da escolha.