As demissões vão continuar e a queda do poder de consumo também. É preciso diminuir o grau de endividamento para não comprometer as contas básicas.
Entramos no segundo semestre do ano e as perspectivas econômicas continuam negativas, apesar do discurso otimista do governo federal, em que a alegação é que os reflexos dos ajustes fiscais seriam sentidos em curto período de tempo. Ledo engano. Os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), publicados no Correio do Estado na edição de terça-feira, reforçam que o desempenho da política adotada pela presidente Dilma Rousseff ainda terá sabor amargo nos próximos meses.
Pelos números, o setor industrial em Mato Grosso do Sul fechou 9,5 mil vagas de emprego em período de doze meses - de maio de 2014 a abril de 2015 - o pior resultado histórico. Foram 85.567 trabalhadores contratados e 95.118 demitidos. O setor com maior peso nesse resultado foi o da construção civil, com encerramento de 8,2 mil postos de trabalho, efeito cascata sentido há pelo menos um ano, por conta do atraso nos pagamentos das obras dos programas Minha Casa, Minha Vida e do Programa de Aceleração do Crescimento.
Até então, o menor saldo total no período equivalente - de maio de 2008 a abril de 2009, com 3,1 mil demissões.
Naquele período, o mundo foi afetado pela crise econômica: desequilíbrio das contas americanas, quebra do banco Lehamn Brothers, redução do crédito internacional e o pânico que travou as operações ao redor do mundo. Desde então, o Brasil adotou medidas, hoje, sabidamente desajustadas para conter os impactos e afetou o tripé em que se sustentava desde a maturidade do Plano Real: regime de metas de inflação, fiscais e câmbio flutuante. Em março deste ano, o ministro do Trabalho e Emprego, Manoel Dias, havia dito que o País estava em processo de recuperação, com base no crescimento de 19 mil postos de trabalho. O aumento foi sazonal e a declaração demonstra o quanto o governo federal estava enganado com os rumos da economia.
O que se vê agora são os efeitos dessas ações.
Os economistas haviam projetado 2015 de retração, mas o quadro está pior do que o imaginado e muitos não veem luz no fim do túnel em curto espaço de tempo. As demissões, embora reflexo doloroso da inconsequência administrativa, é vista como uma forma de correção da inflação: menos emprego, menos dinheiro na praça e, com isso, desaceleração do consumo. As empresas sentiram o baque, reduzindo estoque e demitindo pessoal.
A produção industrial nacional sofreu recuo de 1,2% em abril ante março, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Este é o terceiro resultado negativo consecutivo e, no acumulado, a queda é de 7,6%. As principais influências foram na produção de veículos, reboques, perfumaria e produtos de limpeza. Somente a fabricação de veículos, em um ano, teve queda de 23,2%.
O cenário traduziu-se no resultado do Produto Interno Bruto (PIB), com baixa de 0,2% no primeiro trimestre do ano. O País ainda não entrou na chamada “recessão técnica”, que é quando ocorre a queda por dois trimestres consecutivos. O Brasil já está se encaminhando para isso: o FMI estima que o PIB do Brasil tenha redução de 1% em 2015.
O que a população tenta é se blindar e reduzir os danos já sofridos pela crise. As demissões vão continuar e a queda do poder de consumo também. É preciso diminuir o grau de endividamento para não comprometer as contas básicas. Enquanto o governo tenta se achar no redemoinho que criou, o brasileiro se segura como pode.