Diante do descontrole, fica claro que não adianta mais culpar determinado item dos gastos familiares. A disseminação de “culpados” confirma ainda mais as falhas do governo
Está cada vez mais difícil apontar um vilão da inflação quando, desde janeiro, Campo Grande vem contabilizando índices recordes. O custo de vida subiu 6,29% apenas de janeiro a maio deste ano, segundo o Índice de Preços ao Consumidor de Campo Grande (IPC/CG), calculado pelo Núcleo de Pesquisas Econômicas (Nepes) da Universidade Anhanguera-Uniderp. Habitação, combustível e aumento da energia elétrica lideram o “peso” no bolso dos contribuintes. Agora, as famílias ainda enfrentam o desafio de pagar mais caro pelos alimentos. É apenas uma das reações em cadeia de aumentos decorrentes da elevação dos custos de produção, provocada pelos desajustes econômicos do governo federal.
Restaurantes preparam-se para, no próximo semestre, aumentar em 15% os valores cobrados pelas refeições. Está sendo necessário optar por verduras, legumes e outros alimentos que não tiveram tanto impacto para manter o orçamento doméstico. Não nos assustamos mais apenas com o preço do tomate, que teve aumento de quase 75% em 2013 e virou até motivo de piadas nas redes sociais.
Agora, nós nos espantamos com diversos outros produtos considerados praticamente essenciais no cotidiano das famílias. A “sazonalidade” deixa de ser a única justificativa para o aumento dos preços, considerando que a lista de itens está bem mais ampla.
Para os parâmetros definidos pelo governo, a inflação está muito acima do esperado. Já estourou o centro da meta para o ano todo, de 4,5%. Nos últimos 12 meses, a inflação oficial do País atingiu 8,47% – maior taxa para 12 meses, desde dezembro de 2003, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O receio é que esse cenário desfavorável da alta de preços contribua para elevar ainda mais o desemprego. O setor industrial em Mato Grosso do Sul fechou 9,5 mil vagas de trabalho em doze meses – de maio de 2014 a abril de 2015 –, o pior resultado histórico, apontam dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). A construção civil contribuiu consideravelmente para o dado negativo.
Agora, com tantos aumentos, a tendência é que as famílias reduzam as compras. Com elevação das taxas de juros, muitos não já não estão conseguindo pagar as contas. De acordo com dados do Sistema Central de Proteção ao Crédito (SCPC), no mês de abril, a dívida dos inadimplentes no comércio da Capital alcançou R$ 114,77 milhões. Infelizmente, muitas empresas terão dificuldades para superar os impactos, e as demissões acabam sendo inevitáveis. É o que vem acontecendo no País, em algumas montadoras, diante da queda na venda de veículos.
Os brasileiros continuam na expectativa de que o equilíbrio econômico do governo federal possa ser retomado, mesmo que a maior parte das esperanças esteja depositada apenas na aprovação das medidas de ajuste fiscal ou na dependência da iniciativa privada, para garantir algum investimento que ajude a escapar da crise. Neste primeiro semestre de 2015, já temos uma lista enorme de “vilões” para o aumento do custo de vida dos brasileiros. Diante do descontrole, fica claro que não adianta mais culpar determinado item dos gastos familiares. A disseminação de “culpados” confirma ainda mais as falhas do governo.