Diz a sabedoria popular que de água morro abaixo e fogo morro acima ninguém escapa.
É isso mesmo, e se casa muito confortavelmente na quadratura da situação política e econômica atual. A recente indicação do Tribunal de Contas da União sobre as contas prestadas pela senhora presidente da República é uma página de absoluta franqueza sobre as insuperáveis irregularidades nela encontradas, conhecidas vulgarmente como “pedaladas”. Diante do encontrado, aquela Corte de Contas numa atitude inédita, pois quebrava uma tradição já centenária de pronto decidir, solicitou do Executivo explicações, justificativas, para evitar uma decisão a ponto de abalar ainda mais o conceito da senhora presidente.
De onde me encontro, na planície como todo cidadão, poderia considerar, a priori, que aquela Corte, ao postergar o seu voto, fazia gesto de subserviência ao poderoso Planalto. Ao considerar os aspectos reais que o “emboligo” envolve e suas consequências no futuro (que já não nada animadoras o campo político e econômico do País), reconsiderei minha opinião para entender que o TCU agiu com cautela que as vestes de seus ministros impõe: espírito público.
Assim procedeu. A senhora Presidente da República tem até o dia 22 de julho a oportunidade ímpar de limpar a sujeira administrativa por ela endossada e limpar a cara perante a nação hoje estarrecida. Lá minhas dúvidas. Pelo cheiro que da prestação de contas exala, difícil desodorante eficaz. Está difícil.
Se o TCU, em sua apreciação final, decidir pela rejeição das contas presidenciais, ocorrerá um efeito tsunami em direção ao Congresso Nacional, a quem cabe a palavra extrema. A tradição afirma e reafirma que nunca negou aprovação àquelas, sempre beijou a mão do Planalto, aliás, como nos tempos idos do Palácio do Catete, lá na Cidade Maravilhosa.
Desta vez, porém, o cenário é outro, pois a opinião pública está atenta e não permitirá que o Congresso nacional vergue aos caprichos do situacionismo postergando ad infinitum o julgamento ou decidindo negar o parecer do TCU. Também em levar o problema para o Supremo Tribunal.
Consequência de tudo. O processo decisório aos embalos das ressalvas, das negaças provocadas por brilhantes advogados, irá percorrer o tempo do mandato da senhora presidente e tudo ficará para as calendas gregas. Porém, poderá acontecer que, no finalzinho do atual mandato presidencial, o nosso inefável PMDB resolva, com seu naturalíssimo senso de oportunidade, que ninguém lhe nega, proceder a decepamento do mandato Dilma, via seu impedimento, assumindo Michel Temer a presidência para comandar as eleições de 2018.
Acreditem, pode acontecer. Afinal, ninguém escapa de água e fogo!