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ARTIGO

José Carlos de Oliveira Robaldo: "Mar de lama"

Procurador de Justiça aposentado e advogado

Redação

30/07/2015 - 00h00
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E como diria o poeta: é lama por todos os lados. Nem a imprensa de renome escapa desse lamaçal. O mundo estaria de “ponta-cabeça”? Ultimamente, as manchetes da imprensa escrita, televisada, etc., foram tomadas pelas péssimas notícias de corrupção, de má gestão político-administrativa, de “pautas-bomba”, de despreparos das oposições, isto é, recheadas de notícias antirrepublicanas, termo que se tornou recorrente nos últimos tempos. As consequências estão aí: inflação subindo; desemprego aumentando; dólar às alturas; crescimento pífio da economia; descrédito em relação à capacidade de reconstrução do País e, o que é pior, sob o enfoque psicológico, o desânimo/pessimismo tomou conta das pessoas. 

A culpa desse quadro/contexto seria só da imprensa? Obviamente que não. A imprensa veicula os fatos. Se distorce ou não, a interpretação e valoração cabem a nós. Ou seria culpa das “forças conservadoras”, de “direita”, como afirmam alguns que se intitulam de “esquerda”? A lama não tem escolhido viés ideológico. Está difícil de separar o joio do trigo. O Brasil, em um governo que se diz de “esquerda”, infelizmente, está enterrado na lama. A verdade é que não há preocupação com o nosso País, mas, sim, com a manutenção ou conquista do poder. Os fatos falam por si. Só falta culpar a democracia!

Dinheiro na Suíça, carrões, mansões, etc., são notícias recorrentes e, ao que tudo indica, produtos direta ou indiretamente desse lamaçal e que, com certeza, estão faltando na educação, saúde, mesa de muita gente, segurança pública, justiça e na logística para o escoamento das riquezas oriundas do agronegócio, o único setor que ainda vem segurando o que resta da economia brasileira.  

Quer queira, quer não, por mais avessos que sejamos às generalizações, a cada dia fica mais difícil fazer contraponto às afirmações quanto à falta de idoneidade dos políticos e dos empreiteiros. Colocá-los na vala comum de que todos são desonestos é preocupante e, muitas vezes, injusto. Porque existem exceções. Talvez pouquíssimas, mas tem. Contudo, o volume de denúncias contra a classe política e as empreiteiras é de tal ordem que acaba passando para a população que todos são iguais. Talvez a melhor saída para desfazer essa imagem negativa e resgatar a credibilidade, o que é bom para a democracia, é seguir o ensinamento que está por trás do ditado popular, que “a mulher de César não basta ser honesta, tem de parecer ser honesta”. 

Há quem afirme que, no Brasil, a corrupção e a má gestão da coisa pública são endêmicas, originárias do próprio DNA dos brasileiros, o que retroage a 1500, herança da metodologia de organização e colonização do novo território descoberto, utilizada pelos portugueses, nossos “descobridores”. Enfim, é uma tese sedutora, mesmo porque os relatos e fatos históricos ao longo da nossa história reproduzem quadros cinzentos nesse sentido. Digno de pesquisa. 

O lamaçal respinga – a bem da verdade, é bom que se diga – não só nos políticos do Executivo e do Legislativo, mas também no Judiciário e em outros órgãos da administração pública. Vez ou outra surgem comentários sobre deslizes envolvendo membros do Judiciário, do Ministério Público, entre outros, o que também é lamentável além de inaceitável. O que comprova, com efeito, que o problema não está na Instituição, e sim no seu representante.

O que diferencia um e outro, embora não se justifique, é o pano de fundo dessas práticas. Em relação ao político, o próprio sistema contribui ou induz à prática dos desvios de recursos públicos para pagar dívidas de campanha, bancar os seus aliados ou ainda para fazer caixa para a sua próxima campanha e do seu partido. Muitas vezes, como se tem notícia, essas práticas não visam ao enriquecimento patrimonial do político em si, mas sim sua sustentação no poder ou do seu partido e aliados. Sua sobrevivência. Nesta linha vale tudo. O problema é conjuntural. Em relação aos demais, o propósito único e exclusivo é patrimonial. Utiliza-se da função pública com fins empresariais.

Não fosse a democracia, estas reflexões seriam inviáveis. E graças a ela é que toda e qualquer acusação precisa ser comprovada, na forma da lei.

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