Quem nunca sentiu a emoção de um galope ou de simplesmente trotar sobre um cavalo pode não entender o que descrevo hoje. Sentir o vento, a respiração forte e o movimento cadenciado pode ser descrito com um conjunto de experiências no mínimo essenciais para todas as pessoas que admiram o mundo equestre. Entretanto, esta única e maravilhosa relação de liberdade e contato direto com o animal é quase tão antiga quanto a própria origem da humanidade.
O primeiro descendente do cavalo que se tem notícia é chamado de Hyracotherium, também conhecido como Eohippus ou “cavalo do amanhecer”, que surgiu há cerca de 55 milhões de anos. Diferente dos cavalos modernos, este pequeno animal vivia em florestas e se parecia mais com um cachorro do que com um cavalo. Com o passar dos milênios, este animal evoluiu para o Orohippus, Eppihippus, Mesohippus, Miohippus e muito outros, até chegar ao Equus, que consiste na gênese dos cavalos modernos. Os primeiros Equus já não mais se assimilavam a cães, mas eram bem menores, atingindo apenas 90 cm de altura. A partir dele, surgiram os burros, as zebras, os onagros e também o cavalo doméstico Equus caballus.
O cavalo doméstico, hoje completamente domesticado, apresenta muitas funções para o homem, que incluem sua utilização em trabalho, esportes e lazer. Entretanto, as origens deste processo ainda são nebulosas. Em um interessante trabalho publicado na prestigiosa revista Proceedings of the National Academy of Sciences, os autores, liderados pela Dr. Vera Warmuth, sugerem evidências de que a primeira domesticação tenha acontecido principalmente em fêmeas, nas estepes do Cazaquistão e da Ucrânia. Por outro lado, a domesticação dos machos teria sido muito mais complicada, dado o comportamento mais agressivo. Este fato explicaria a reduzida diversidade genética do cromossomo Y em populações de equinos domésticos. Entretanto, se o passado destes animais anda é incerto, o seu futuro pode ser decididamente brilhante. Inúmeros grupos científicos no mundo todo têm focado os cavalos como fonte de estudos para melhoria de desempenho e melhor entendimento destes incríveis animais.
A Universidade de Kentucky (EUA) tem liderado a cooperativa mundial conhecida como Projeto Genoma do Cavalo, objetivando sequenciar o DNA completo do maior número de indivíduos possíveis de diferentes raças do cavalo doméstico. Esta informação traria benefícios claros que nos levariam a entender os aspectos genéticos da fisiologia equina, levando a óbvias melhorias no tratamento de inúmeras doenças, como laminite e síndromes respiratórias. Além disso, este projeto também foca no melhor entendimento genético da cor da pelagem do animal e de doenças genéticas musculares como a paralisia periódica hipercalêmica e a deficiência de enzimas ramificadoras de glicogênio.
Além disso, marcadores moleculares também têm sido buscados e obtidos em cavalos, objetivando potencializar a busca de características desejáveis nos animais. Desta forma, tem sido possível antever cruzamentos que levem à alta probabilidade de melanomas malignos nos animais, por exemplo. Em um futuro muito próximo, técnicas de biologia molecular e genômica poderão dizer se o potro gerado a partir de uma determinada cruza apresentará probabilidade de ser apto ao salto ou se apresentará as cores desejadas pelo comprador. Com estas ferramentas, será possível comprar cavalos customizados, que se ajustem à necessidade e ao desejo das pessoas envolvidas, solidificando ainda mais a relação entre cavalos e homens.
A ciência está vigilante ao nosso lado, atuando sabiamente para solucionar os problemas de nossa sociedade.