Nos últimos tempos, episódios veiculados na imprensa tupiniquim indicam que aos poucos se deixa de lado o Estado do bem-estar social e da convivência pacífica entre pessoas e povos, e se vai em direção à barbárie ou a quase isso, particularmente no Brasil. Assim, casos de racismo, intolerância, brutalidade e desrespeito a direitos humanos mais elementares, se tornam mais comuns nos dias atuais, em tempos de “austeridade econômica”.
Dias atrás, por exemplo, em um dos banheiros masculinos da faculdade de direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, uma inscrição racista chamou a atenção dos estudantes: “Lugar de negro não é no Mackenzie, é no presídio”.
Em julho, na Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Bauru, uma das inscrições se dirigia ao professor Juarez Tadeu de Paula Xavier, chefe do departamento de Comunicação Social e coordenador do Núcleo Negro para Pesquisa e Extensão (Nupe). “Juarez macaco” e “Unesp cheia de macacos fedidos” foram algumas das frases escritas nas portas do banheiro masculino.
Para o professor Xavier, esse tipo de manifestação tem a ver com a política de cotas instituída pela Unesp. Para ele, porém, “mais importante do que punir é criar mecanismos para superação, como inserir no currículo a prática de acolher os cotistas e informar aos outros alunos que essa não é uma concessão de privilégio, mas garantia de direito”.
Em junho, na Universidade Federal do ABC (UFABC), em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, o crime foi de homofobia. As portas do banheiro masculino foram tomadas por frases ofensivas à criação de um grupo dentro da instituição – o Prisma – que promovia informações sobre diversidade sexual e de gênero.
Nesse sentido, o professor e pesquisador Angelo Brandelli Costa, do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) conduziu pesquisa que mostrou que 88% dos alunos da instituição têm algum grau de homofobia ou transfobia. E concluiu: “Precisamos incluir questões de direitos humanos no currículo, caso contrário, o preconceito vai se perpetuar”.
Em maio, alunos da Universidade Federal do Paraná (UFPR) espalharam cartazes machistas e cheios de palavrões pelos corredores. “Houve um caso de estupro entre alunos da universidade, mas foi externo, e um grupo de mulheres espalhou inscrições pedindo mais respeito às alunas”, diz a estudante de Ciências Sociais Jhenifer Batista, 22 anos, do Diretório Central dos Estudantes (DCE).
Mas não é só em universidades brasileiras que esses absurdos ocorrem. Em junho passado, o governador do Texas, Greg Abbott, promulgou uma nova lei que abriu brechas para que armas sejam levadas para dentro de salas de aula, dormitórios estudantis e outros edifícios dos campi universitários nos EUA. Assim, pessoas com mais de 21 anos que tenham porte de armas poderão ter uma consigo nas aulas!
O autor do projeto, senador estadual Brian Birdwell, alegou que o direito ao porte de armas é “garantido por Deus”. Mas em resposta estudantes do Estado do Texas planejam protestar usando brinquedos sexuais. “Você trouxe uma arma para a aula? Bem, eu estou carregando um enorme vibrador”, escreveu no Facebook Jessica Jin, aluna da Universidade do Texas, em Austin. Mas um pai retrucou: “Como pai, me sinto mais confortável com meus filhos tendo armas dentro do campus do que com um vibrador”. É mole?
É provável que os episódios narrados acima resultem em grande parte do desconhecimento das leis que regem o comportamento humano e da convivência saudável entre pessoas de diferentes raças, gêneros, posições sociais, mesmo em se tratando de ambiente universitário tanto aqui como nos EUA.
Mas pode ser também que, no Brasil, eles resultem de dificuldades que as pessoas têm no seu dia-a-dia, especialmente em tempos de “vacas magras” e de austeridade econômica do governo federal que afetam particularmente a vida das classes menos favorecidas.
Aliás, como disse o recém-ganhador do prêmio Nobel de Economia, o escocês Angus Deaton, sobre os programas de austeridade econômica implementados por diversos governos no mundo: (Eles, os programas) ”Reduzem a renda, cortam benefícios e destroem empregos”. É isso aí.