O ano de 2015 já pode ser considerado um dos mais infrutíferos da Legislação em Campo Grande
A investigação da compra de votos na Câmara de Vereadores, para cassar o mandado do prefeito de Campo Grande, Alcides Bernal, é amostra da troca de acusações que virou o Legislativo da Capital. Depois que os parlamentares tomaram conhecimento do teor do depoimento prestado pela colega Luiza Ribeiro (PPS), o mal-estar tomou conta da Casa de Leis e culminou na vexatória sessão de quinta-feira (22), com direito à confusão e a registro de ocorrência na Polícia Civil. Agora, o Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) vai notificar vereadores que não estão incluídos na apuração da Operação Coffee Break, para que também entreguem os aparelhos celulares, incluindo, ainda, Alcides Bernal na lista.
A notificação para que os vereadores entreguem voluntariamente os celulares partiu de pedido do advogado René Siufi, que representa os parlamentares do PMDB. Esta solicitação teve como base as declarações de Jamal Salém (PR), que disse ter ocorrido grande oferta de “cargos e dinheiro” para que os vereadores votassem contra a cassação. Durante depoimento ao Gaeco, Jamal absteve-se de prestar a informação, pois teria sido “pego de surpresa”. A suspeita de compra de votos a favor de Bernal foi relatada depois dos desdobramentos da Coffee Break, com depoimentos que revelariam como teria sido esquematizada a negociação dos votos, em diversas reuniões.
O clima não poderia ser pior na Câmara de Vereadores e na relação com o Executivo. Se havia qualquer possibilidade de diálogo com Alcides Bernal – relação já precária por causa da falta de jogo de cintura do prefeito –, agora, está completamente inviabilizada. O ano de 2015 já pode ser considerado um dos mais infrutíferos da Legislação em Campo Grande. É recorrente, desde o início do ano, a suspensão das sessões por protestos que não representam exatamente o exercício da democracia e participação popular, mas sim bate-boca recorrente entre oposição e defesa da administração. Exemplo disso foram as manifestações durante a greve dos professores e dos médicos, em que havia até “pulseira vip”, a qual identificava os defensores do prefeito afastado Gilmar Olarte, contra os opositores, todos devidamente recrutados para algazarra e confusão.
A ampliação da investigação pelo Gaeco seria válida para o desfecho do episódio da cassação de Bernal; porém, se ficar apenas no pedido informal, sem investigação a fundo, não servirá para nada. Triste pode ser a constatação de que houve esquema dos dois lados – a compra de votos para cassar ou garantir a manutenção de Bernal no cargo. Se acontecer, será a evidência da desmoralização, sem precedentes, na Câmara, local em que deveria ser o abrigo dos interesses da população da Capital, e não o trampolim de interesses escusos e mesquinhos dos vereadores. Até as eleições em 2016, espera-se que os eventos estejam recentes na memória do campo-grandense, e que os eleitores tenham discernimento e critério na hora de escolher o candidato. Enquanto o jogo de “toma lá dá cá” pelo voto ainda for usado, com negociações por cesta básica, dinheiro ou cargo, o erro será recorrente. Afinal, é exemplo idêntico – com valores menores – ao que as negociatas vistas nas operações Lava Jato e Lama Asfáltica representam: a perpetuação da corrupção no sistema político do Brasil.