O consórcio de empresas detentor da concessão do transporte coletivo de Campo Grande pleiteia reajuste de tarifa, que passaria de R$ 3,00 para R$ 3,50.
A alegação para o pedido se apoia no aumento do preço do óleo diesel, na cobrança do pedágio e na queda do volume de passageiros pagantes. Quanto ao primeiro, nada resta senão pagar o valor cobrado, apesar de que, adquirindo o produto no alto atacado, o consórcio pode obter preços menores. O pretexto do pedágio chega a ser risível, não merece comentário. Já a queda na procura do serviço, não é uma variável exógena, muito ao contrário.
Uma das lições elementares do empreendedorismo ensina que se deve, sob todas as formas, atrair clientes e, mais do que isso, fidelizá-los. Afinal, sem eles, no limite, a empresa pode até falir. Por isso a busca incessante pela melhora de performance, em geral baseada na elevação da qualidade do bem oferecido, mercadoria ou serviço, e na redução de custos. O consórcio até atuou nessa direção, eliminando, há cerca de três anos, importante item de sua planilha de despesas, o cobrador; mas esse ganho não foi socializado, não repercutiu na tarifa.
Por sua vez, a qualidade do serviço tem no encolhimento gradativo desse mercado, que ano a ano perde passageiros, a prova cabal de sua precariedade . Se tenho um transporte coletivo ruim; se perco tempo demais à espera do ônibus; se viajo em coletivos lotados, barulhentos, quentes e sem ventilação; se pago caro por esse péssimo serviço, resta buscar solução individual para minha necessidade de locomoção. Daí o crescimento da frota de carros particulares, motos e bicicletas.
Logo, quando se discute a mobilidade urbana e se constata que sempre são necessárias mais vias públicas para suportar o crescimento exponencial do transporte individual, não se pode esquecer o papel decisivo que o transporte público de má qualidade tem nessa equação.
O mais descabido, porém, é a natureza do argumento: preciso aumentar o preço da tarifa porque tenho menos gente usando meu serviço. Uma das premissas básicas do capitalismo é perseguir o máximo de produtividade, ou seja, mais e melhor por menor preço, para enfrentar a concorrência. Porém, no caso da concessão de transportes coletivos trata-se de monopólio, e, por isso, os empresários do ramo não precisam se preocupar com a eficiência, com a melhoria do atendimento. Ainda que menos gente pague por seu serviço, a receita, via majoração de tarifa, estará sempre garantida. Assim, a queda no volume de passageiros persiste, cresce, criando um círculo vicioso, a justificar futuros aumentos.
Onde está o Prefeito, eleito pela massa usuária de ônibus? E a Agetran? E os vereadores, que deveriam defender os interesses da população? E as autoridades incumbidas de coibir essa prática lesiva aos cidadãos? Não é concebível que uma empresa use a própria ineficiência como argumento para manter seus ganhos à custa do consumidor. Por que não absorve o prejuízo gerado por ela mesma, como qualquer outra?
É tempo de se rever esse contrato; de se avaliar quanto o transporte público impacta a mobilidade urbana e os custos do setor saúde, às voltas com o expressivo número de acidentados no trânsito; de se enfrentar o desafio para implantar outras formas de transporte de massa. Campo Grande não pode permanecer à mercê dessa mentalidade arcaica. Que na próxima campanha municipal o tema seja pautado com a seriedade devida, com propostas inovadoras, ainda que firam interesses localizados, para o bem da nossa coletividade.