Artigos e Opinião

ARTIGO

Paulo César Régis de Souza: "Benefícios de uma greve"

Vice-presidente da Associação Nacional dos Servidores da Previdência e Seguridade Social (ANASPS)

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Quando a farinha é pouca, meu pirão primeiro. Esta é a visão de escassez do bravo povo brasileiro. Uma visão realista e objetiva.

O INSS sempre foi sacudido por greves, algumas memoráveis, e no fim, entre mortos e feridos, salvaram-se todos. O lamentável no processo é que, para que haja melhorias, são necessárias as greves! Tudo porque os setores da administração que lidam com Recursos Humanos, Físicos e de Serviço fizeram da gestão pública uma corrida de obstáculos. Tudo que diz respeito ao servidor precisa ser conquistado no braço. Não há mérito, reconhecimento, direitos. Cada governo inventou benefícios para categorias mais articuladas e deixou na estrada a legião que carrega o serviço público nas costas. Não há uma regra para todos. 

O Estado brasileiro segue uma lenta e preguiçosa burocracia.  Nos tempos do Dasp, que foi modelo de gestão pública, inspirado pelo padrão francês, surgiram os celetistas. O Brasil chegou a ter mais celetistas do que estatutários. Hoje, os terceirizados, temporários, estagiários, comissionados, contratados por órgãos multilaterais (não há estatísticas) empatam com o número de concursados. 

No INSS, nossas lutas para que tivéssemos um Plano de Carreira, Cargos e Salários têm décadas. Quando conquistamos, verificamos que havia pegadinhas e furos. Com um vencimento básico humilhante e degradante, nos entulharam de gratificações de desempenho e de produtividade, que não medem nem uma coisa nem outra, com o agravo de que representam 70% do rendimento e não podem ser incorporadas às aposentadorias. Quem passou 35 anos dando o sangue para a instituição é obrigado a se aposentar deixando o paletó e as calças! É depenado, como um carro roubado!

Não é sem razão que 10 mil servidores, em condições de se aposentar no INSS, recebem abono de permanência, pois, se saem, perdem 70% de sua renda. Se saem, o INSS fecha, pois os concursos de 2003 a 2014, que trouxeram 22.675 servidores, não impediram que outros 25 mil fossem embora.
Entramos em mais uma greve dispostos a tudo. Como um dos itens da pauta era concurso, o governo se apressou e anunciou um certame antes da greve rodar, para 950 servidores. O mesmo governo que dois meses antes dissera que não haveria concurso. No balaio das reivindicações, algumas pendengas antigas foram resolvidas no susto. Para o auxílio-alimentação e para o plano de saúde suplementar, cujos últimos reajustes ocorreram em 2013, os índices aplicados ficariam em torno de 22,5%, considerando a inflação de 2013 e 2014 e a estimativa para 2015. Já para o auxílio pré-escolar, conhecido como auxílio-creche, o reajuste levaria em consideração o período inflacionário acumulado desde 1995, o que daria um índice de cerca de 317%. Somados, os três reajustes significariam um impacto anual orçamentário de R$ 1,3 bilhão. Vejam o saco de maldades do Ministério do Planejamento: o último reajuste do auxílio-creche fora em 1995! Uma vilania.

O eixo principal de nossa pauta era a reposição da inflação no reajuste. Pedimos 27% de aumento, firmando o governo posição com o índice de 21,3%, dividido em quatro parcelas. Com isso, o gasto da folha de pessoal permanecerá estável em 4,1% do PIB até 2019. Em nova rodada, o governo, temendo a inflação de 2015/2016, acenou com o “gatilho” na forma de uma cláusula de revisão. O pacote fiscal mudou tudo e impôs aumento de 10,5% para 2016 e 2017.

 Não tínhamos esperança que todas fossem atendidas, mas são nossas bandeiras. Somos uma entidade de servidores com 53 mil associados. Somos corporativos, claro, mas temos uma visão moderna do Estado. Não do Estado paternalista e assistencialista, mas do Estado a serviço da sociedade e do cidadão.

Como se pode inferir, são muitos os transtornos funcionais enfrentados pelos servidores do INSS pela ausência de uma Política de Recursos Humanos do Poder Executivo, que muda a cada governo e a cada ministro, os quais só pensam nos grupos mais estruturados.

Artigo

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