Manifestações de carinho ou reconhecimento nunca foram o forte na família. Emoções e sentimentos sempre foram contidos e, de alguma forma, escondiam-se entre a alegria ou o drama. Nada era tão ruim, mas também nada era tão bom.
Parabéns era apenas uma palavra cantada em dia de aniversários. E ponto. Estudar era obrigação, trabalhar um dever e o resto não tinha nenhuma importância. O ceticismo era feito navalha, cortando os fios de esperança. Dizem que o meio nos define. Que guardamos toda centelha de emoção e dor da infância.
Apenas não lembramos. Ou fingimos para sobreviver. Por isto, quando ele me ligou, logo cedo, dizendo que iria receber uma homenagem, eu respondi no automático: “Mais uma?”. Ele apenas riu. E pediu ajuda com o discurso.
Minha criança ferida foi logo dizendo que não. “Imagina, não sei fazei discursos”. “Mas como, mãe? Você sempre fez para todo mundo”. Retruquei dizendo que os temas eram mais fáceis. Mas, diante de argumentos mais contundentes, aceitei a tarefa.
Afinal, para que serve uma escritora na família? Meu filho caçula vem fazendo sucesso com seu empreendimento. É sagaz, focado, ético e tem paixão pelo que faz. Há dois anos, vem acumulando prêmios pela gestão, um método inovador que implantou na sua empresa. Acompanho tudo e tiro, lá do fundo, a força para demonstrar o que não aprendi. A tarefa é árdua. De longe, teço elogios. De perto travo. Junto a isto, a esta falta de adequação e cultura do afeto explanado, está minha batalha contra o ego. O meu e o dele. Dizem que a vaidade é o pecado capital predileto do “anjo caído”. Ele é sedutor, inebriante e, segundo os entendidos, é original, inato, já nasce dentro de nós. E como ele, o anjo, disfarça-se muito bem, vivemos nos confundindo e nos iludindo.
Quando meu filho resolveu morar nos Estados Unidos, há alguns anos, coloquei na mala um papel, em que se lia: “Tudo passa”. É uma frase do Osho, para que possamos entender que tanto a dor como a felicidade passa. E que nunca devemos nos apegar nem a um nem a outro. Na sua ingenuidade e, claro, na total despreocupação, ele entendeu a frase como um conselho doméstico, não filosófico. E me entregou o papel dizendo que, sim, ele sabia que as roupas precisavam ser passadas. Contei esta história num grupo de meditação e todos caíram na risada. Osho é uma pegadinha para iniciados. Mais passada estava eu, que “perdia” o filho para o mundo. Este vasto e perigoso mundo.
E passada ainda continuo, quando vejo à minha frente meu menino crescido, que voltou quase um gigante, encantando a todos com seu trabalho, criatividade e inovação. E é para este menino a minha crônica. E para todos os meninos e todas as meninas, inclusive eu, que cresceram sem saber se eram realmente bons. Porque faltaram palavras de incentivo, de coragem e de afeto.
Felizmente, um anjo bom me deu a literatura como uma fresta. Uma janela aberta. Aproveito cada lufada de ar fresco e escrevo, dedicando a você, meu filho, minhas frases impressas e públicas, de reconhecimento. Tudo passa; mas, enquanto estivermos por aqui, não devemos economizar afetos, gestos, nem dispensar os longos e sinceros abraços. É assim que superamos nossas faltas. Com amor.