“Em que espelho ficou perdida a minha face?”, pergunta Cecília Meireles. Hoje, olho-me no espelho e não me reconheço. Afinal, continuo sendo a mesma menina que gostava de esconder-se debaixo da cama para ler em sossego seus autores prediletos.
Quando me dizem que estou acabada, estranho. Nunca me vi como uma velhinha de rugas e olhos cansados. O que sou, o que fiz, o que ainda desejo ser, só eu mesma sei. Carrego minhas angústias e frustrações no silêncio de uma vida que não se desdobra em lamentos.
Minha adolescência não teve apenas frustrações ou desejos fracassados. No internato, nunca me haviam convidado para coroar Nossa Senhora. Nunca me vestira de anjo como as garotas louras de olhos azuis. Tampouco conseguira o papel de princesa em alguma peça de teatro.
Mas foi naquelas quatro paredes fechadas para o mundo e seus encantos que encontrei o sentido da vida, quando o olhar da freira, que era minha assistente, descobriu possibilidades de crescimento da menina nordestina, sem amigas, sempre enfiada na biblioteca.
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Foi ela que incentivou meu gosto pela escrita, que me ensinou a fazer das palavras peças desse jogo de mistérios que se chama literatura, no qual a vida se transfigura para a descoberta dos mundos simbólicos, em que tudo é possível. Desvendou-me o poder das palavras, o gosto de tocá-las, de juntá-las em pequenos quebra-cabeças. Abriu-me o coração para os mistérios da vida, ensinou-me a desconfiar das aparências, a romper a indiferença na construção da liberdade.
O internato transformou-se de repente em espaço da descoberta, da certeza de que era preciso aceitar os riscos, para atingir o caroço dos sonhos, morder a carne da vida sem medo de ver o sangue correr, para depois saborear as alegrias do encontro. Minha história renovou-se.
No lançamento de meu primeiro livro, meu coração bateu mais depressa, quando ele se aproximou para um autógrafo. O medo quis gelar-me as veias, mas foi com inesperada confiança que respondi ao apelo daquele olhar, certa de que nunca mais nos separaríamos. Nada mais existia senão aquele encontro ao qual me entreguei.
A onda de amor inexplicável fez-me esquecer de tudo, o passado era apenas mais uma mancha nebulosa, em que as dores representavam pontinhos perdidos de uma melodia que se distanciava cada vez mais.
Amei, casei, tive filhos e netos. Alguns me deixaram, mas não me sinto sozinha. Hoje, ao fitar o espelho, transparência feita de luz, em que se concentra minha vida, sinto que cumpri meus prazos.
Encontrei na arte a razão de vencer os lamentos que o passado teimava em fazer ressurgir. Afinal, como diz meu mestre Machado, a vida é uma ópera que é preciso executar até o fim. Sem medo e com aplausos.