Uma nova tecnologia tem balançado os alicerces das ciências neste último ano. Esta técnica, denominada em inglês como “clustered regularly interspaced short palindromic repeats” ou simplesmente CRISPRs (se pronuncia crisper), consiste em uma fantástica metodologia que nos torna capaz de editar genomas. Em resumo podemos dizer que agora somos capazes de mudar o DNA de qualquer ser vivo com grande precisão.
Em 2001, quando foi finalizado e publicado o projeto genoma humano, foi dito que havíamos elucidado o livro da vida do homem. Nele o DNA ensinava como a máquina humana funcionava e nos mostrava em detalhes moleculares como isso acontecia. Agora podemos escrever novas palavras neste livro, ou melhor ainda, consertar os erros ortográficos e gramaticais.
O sistema CRISPR/Cas consiste em um sistema imune procariótico capaz de conferir resistência a elementos genéticos externos de bactérias e vírus. Assim, toda vez que somos atacados por microrganismos, o sistema CRISPR reconhece e excisa estes elementos genéticos danosos nos protegendo de infecções.
Adicionalmente, este sistema age em consonância com enzimas conhecidas como endonucleases, que são usadas por nosso corpo para a edição gênica. O sistema em resumo encontra falhas em qualquer ponto do DNA e conserta.
Utilizando esta mesma lógica, dada as coordenadas corretas, somos capazes, através deste sistema, de mudar a sequência de DNA em qualquer localização de diferentes genomas. Assim a tecnologia apresenta enorme aplicação na saúde humana e no agronegócio.
Um claro exemplo da aplicabilidade desta tecnóloga foi observado no último mês com carinho por Layla Richards e sua família. Layla, uma garotinha inglesa de apenas um ano com um caso grave de leucemia, recebeu células do sistema imune melhoradas pela CRISPR. Até o momento tudo está funcionando bem e a pequena Layla tem melhorado a cada dia. Entretanto esta não é a primeira vez que a edição de genoma foi usada em terapias.
No último ano a empresa americana Sangamo Biosciences publicou resultados expressivos de testes clínicos nos quais usou a tecnologia CRISPR para o tratamento de doze pessoas com HIV. Os resultados foram extremamente positivos sendo efetivo em metade das pessoas tratadas. No momento a companhia americana está tratando mais 70 pessoas.
Uma outra enorme possibilidade que retorna agora com o desenvolvimento da tecnologia de edição de genomas consiste no xenotransplante, ou em letras miúdas, o uso de órgãos de animais em seres humanos. Desde a década de 60, cirurgiões em todo o mundo tentam colocar por exemplo rins de chimpanzés, babuínos e porcos em humanos.
Entretanto o sucesso foi muito pequeno, uma vez que a maioria dos pacientes morreu após apenas alguns meses de vida, dado ao alto índice de rejeição causados pelo sistema imunológico dos pacientes para órgãos não humanos.
Quase três décadas depois, inúmeros estudos mostraram quais são os compostos que causam tais rejeições e que, por conseguinte inviabilizam o uso de órgãos de animais para transplantes. Entretanto com advento da CRISPR, o xenotransplante renasce uma vez que é possível editar o genoma de um porco, por exemplo, afim de tornar rins e fígado receptíveis ao corpo humano. Desta forma o problema da falta de órgãos seria minimizado e milhares de vidas poderiam ser salvas.
A lista de doenças a serem curadas e o potencial da CRISPR é imenso, mas os comitês de ética e a legislação sobre esta tecnologia devem ser extremamente rígidos afim de evitar problemas reais no futuro. A ciência está vigilante ao nosso lado, atuando sabiamente para solucionar os problemas de nossa sociedade.