Eu posso escrever com rimas cultas
Eu posso escrever com dores ocultas
Eu posso escrever Causos
Eu posso escrever crônicas, posso escrever poemas, com alegrias ou com dilemas...
Eu posso escrever sobre as duras verdades, posso escrever sobre as cicatrizes que expõem as ranhuras da saudade
Eu posso encolher-me numa posição fetal com o desejo leve de boiar, confortavelmente, no líquido amniótico desejar ficar
Eu posso escrever e posso crer que dentro da barriga é o melhor lugar para se permanecer e para sempre me proteger dos choques mecânicos e dos choques térmicos, dos dissabores do mundo externo, das intempéries cósmicas me esconder
Eu posso explicar sobre tantas teorias, posso falar da solidão, de amores vãos, de tantos cometas que embarquei na escuridão
Eu posso escrever sobre como é a sensação de eclodir, do rasteiro mato sair, nos pantanais submergir e ressurgir fatal, a cada explosão mental
Eu posso escrever com tinta preta, ou com a tinta que houver na paleta para circunscrever o imaginário, tocar na vida, poetizar e pintar o mais doce sorriso para dar guarida a tanta gente sofrida
Eu posso escrever para consolidar marcas na mente,tatuar registros profundos na pele da gente, mensurar a dor quente na alma de um povo explorado, como sente o gado marcado com o direito contido de apenas gemer, sem ter a quem recorrer
Eu posso escrever para as crianças, tentar decifrar suas garatujas, extrair delas toda fantasia, magia e alegria em abundância, as delicadezas dos ensinamentos da infância que transbordam o mundo de esperanças
Eu posso escrever como é que eu completo as mulheres escrevendo para elas com o meu papo reto
Eu posso escrever que seduzo os homens, que os amedronto com minha coragem e que os enfeitiço com a minha imagem
Eu posso escrever sobre a expectativa de um sábado, um dia molhado, onde meu olhar passeia num bar, enxerga homens a extravasar muita tristeza num copo de cerveja, com o dinheiro contado, o suor salgado
Eu posso escrever para as individualidades, também sou uma delas, compreendo as frustrações, as precariedades, o choro baixo, doído, nas noites de sonos perdidos nos dias chuvosos, compreendo a sinfonia cinza de dias nebulosos,dias tardios com bolsos vazios, sorrisos apáticos, carências latentes, verdades únicas,vergonhas aparentes, dores aplacadas pelas necessidades de seguir em frente
A dicotomia da vida, chegada e partida, confunde, prende e afrouxa, faz sorrir e faz chorar, dá prazer e faz doer, eu posso escrever para a vida, eu posso escrever para o mundo demasiadamente desumano
Eu posso escrever para quem quer ler, eu posso escrever para antever que sem o recurso da literatura é mais árido o viver!