Inevitável o receio de que esse novo direcionamento não resulte em descontrole de dívidas, a exemplo do que acompanhamos no primeiro mandato da presidente Dilma
Enfim, o Governo Federal anuncia medidas para tentar tirar o Brasil de uma de suas mais graves crises financeiras. Ontem, durante reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES), foi anunciada abertura de linhas de crédito no valor de R$ 83 bilhões. A ideia, agora, é estimular investimentos, com liberação dos recursos voltados aos setores habitacional, infraestrutura e meio rural. Inevitável o receio de que esse novo direcionamento não resulte em descontrole de dívidas, a exemplo do que acompanhamos no primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff.
Foi justamente o estímulo exacerbado ao consumo, com incentivos às compras baseados até mesmo na redução de impostos, que resultou no desastre econômico enfrentado atualmente. A presidente assumiu que errou, principalmente ao não ter “enxergado” a dimensão da recessão. Agora, não estamos em condições que novos equívocos sejam cometidos. Afinal, há de se considerar que a utilização da linha de crédito ocorre num momento delicado. Além da estagnação de investimentos, os brasileiros enfretam desemprego recorde, com fechamento de 1,5 milhão de vagas de trabalho. Em Mato Grosso do Sul, foram 11,5 mil postos de trabalho a menos.
Sem emprego e com o custo de vida elevado (inflação fechou 2015 em 10,67%), as dívidas tornaram-se sacrifício para diversas famílias. No País, 59 milhões começaram o ano na lista de inadimplentes, com total de dívidas que chega a R$ 255 bilhões. Sem dúvida, mais uma das consequências da equivocada política de incentivo ao consumo que, anteriormente, tinha cunho eleitoreiro. A ideia era fazer o consumidor acreditar no seu poder de compra com o atual Governo e, por isso, seria interessante votar naquela mesma equipe. Apesar dos alertas, a presidente resistia em assumir as dificuldades e resistia em alterar as políticas econômicas. Falava-se, por exemplo, que o Governo estava “segurando” o reajuste dos combustíveis e, de fato, enfrentamos sucessivas altas ao longo do ano passado.
População e empresários precisarão de fôlego para retomar a possibilidade de contrair novos empréstimos. Infelizmente, há entraves: além do reajuste da gasolina e do diesel, subiram energia, alimentos e diversos outros produtos, impactados até mesmo pela alta do frete. O mercado financeiro reagiu negativamente à chegada de Nelson Barbosa ao Ministério da Fazenda no fim do ano passado, temendo que as medidas de ajuste fiscal não fossem adotadas na proporção necessária. Com o anúncio de ontem, a expectativa é retomar a confiança de investidores estrangeiros, que deixaram de “acreditar” no Brasil.
Nestes primeiros dias de 2016, já recebemos previsões pessimistas. a exemplo do relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI) que estima possibilidade de o País sair da crise apenas em 2018. Espera-se que, de fato, retomem-se investimentos que foram suspensos (a exemplo das obras), o que certamente irá ajudar a reverter o cenário negativo no mercado de trabalho. No entanto, a cautela é indispensável para que não voltemos a enfrentar orçamentos estrangulados, sem dar conta das dívidas assumidas pelos novos créditos oferecidos. Os equívocos não podem ser repetidos.