A maioria não tem caixa para iniciar a negociação e depende do crédito. A renda do brasileiro está menor em razão da inflação ou perdas salariais e não há confiança em assumir dívidas em longo prazo
Todas as perspectivas econômicas no ano passado indicavam que 2016 ainda seria ano de retração e que o cenário exigiria corte e contenção de gastos. Um dos setores mais afetados é o mercado imobiliário, com queda vertiginosa nas negociações. Os números em Campo Grande mostram redução de 25% nos preços, índice que ultrapassa o estimado pelas agências de classificação Moody’s e Fitch sobre o recuo no País, que ficou, em média, 20%. Os porcentuais refletem a continuidade da baixa atividade.
Na teoria, isso demonstra que o ano seria bom para o comprador, uma “janela” de oportunidade. Só na teoria. Isso porque a queda nos preços está relacionada diretamente à crise e à restrição do crédito imobiliário. Com análise mais criteriosa, fica praticamente impossível fechar negócio, salvo no caso em que o interessado tenha aporte razoável disponível para reduzir o valor de financiamento. Essa alternativa, embora mais atrativa, é oásis no deserto. A maioria não tem caixa para iniciar a negociação e depende do crédito. A renda do brasileiro está menor em razão da inflação ou perdas salariais e não há confiança em assumir dívidas em longo prazo. Os bancos, por sua vez, não dispõem do dinheiro para dotação e precisam aguardar tempo para a liberação do montante.
Os índices deste ano indicam viés negativo para a economia brasileira. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) registrou 9,1 milhões de desempregados, aumento de 41,5%, na comparação de setembro a novembro de 2015 com igual período do ano anterior. Nesta sexta-feira, o governo federal anunciou corte de R$ 23,4 bilhões do orçamento, sendo R$ 4,2 bilhões no bloqueio de gastos no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Além do anúncio da contenção, o governo reavaliou a contração do Produto Interno Bruto (PIB) em 2,9% este ano. A estimativa anterior era de queda de 1,9%. Por fim, foi confirmado, oficialmente, em decreto de programação orçamentária, que a inflação deverá ficar acima do previsto, passando de 6,47% para 7,10%.
A expectativa de melhora a partir do segundo semestre de 2016 parece cada vez mais distante. Indicativo da pesquisa do Banco Central é que as contas públicas deverão registrar deficit primário, sendo o terceiro ano consecutivo fechando no vermelho. O cenário macroeconômico demonstra que a retração no mercado imobiliário ainda deve continuar. Soma-se a isso o aumento do cancelamento de imóveis vendidos, processo conhecido como distrato, que, no País, teve aumento de 20% no quarto trimestre do ano passado. Em janeiro, a agência Fitch indicou perspectiva negativa para o setor imobiliário brasileiro, com melhora no cenário apenas em 2017, na expectativa da estabilização e disponibilidade das poupanças.
Para quem tem imóveis à venda, será necessário abrir mão, cada vez mais, do valor pretendido inicialmente. Com isso, o indicativo é de que os valores possam cair ainda mais, embora o mercado em Campo Grande acredite que está ocorrendo apenas acomodação dos preços. O setor ainda tem estoque para queimar e, com isso, novas construções estão suspensas, o que mantém os índices de desemprego nas alturas. A bola de neve não para.