Fica evidente, portanto, que recursos acabam sendo desperdiçados numa luta incessante e ineficiente, considerando que o foco das ações repressivas está errado.
Afalta de estratégia na guerra contra o tráfico de drogas, armas e munições é gritante. Todos sabem a origem dos produtos ilícitos, mas o Governo Federal insiste em negligênciá-la. Por isso, a fronteira de Mato Grosso do Sul com Paraguai e Bolívia, países produtores de maconha e cocaína, respectivamente, continua escancarada. Até mesmo o secretário de Segurança do Rio de Janeiro, José Beltrame, defende que a região seja encarada com a devida prioridade. Os cariocas são duramente castigados pelas ações do tráfico. De longe, acompanhamos as disputas entre morros pelo domínio da venda de drogas, algo que sempre envolve armamento pesado. Segundo o secretário, foram feitas ações para reduzir a violência, mas ele resume que estão apenas “enxugando gelo”, no que concerne ao tráfico.
“Apreende muita coisa, prende muita gente, mas esses índices não diminuem. A droga não para de chegar, a arma não para de chegar, a munição não para de chegar e acabamos não tendo uma queda nesses índices”, revelou Beltrame, na entrevista concedida ao Correio do Estado, que pode ser conferida na página 12 desta edição. Fica evidente, portanto, que recursos acabam sendo desperdiçados numa luta incessante e ineficiente, considerando que o foco das ações repressivas está errado. Beltrame fala com experiência de quem acompanha diariamente as dificuldades no Rio de Janeiro, mas também do período em que atuou como policial federal, justamente nessa região.
Se os investimentos na fronteira são defendidos até mesmo por representantes de outros estados, inclusive de um dos mais impactados pelo tráfico, como compreender a resistência do Governo Federal? Há um descaso incompreensível. Certamente, hoje a explicação estaria na contenção de recursos em decorrência da crise econômica. Entretanto, estamos nos referindo a situação que se repete há anos, contando apenas com ações esporádicas em que algumas quadrilhas são desmanteladas ou drogas apreendidas. O poder de organização dos grupos criminosos avançou muito acima do patamar de atuação das forças policiais. Por isso, a luta tornou-se tão desigual.
A criminalidade dentro das cidades nos designa a uma realidade: a quantidade de drogas e armas que passam livremente por Mato Grosso do Sul e outros estados brasileiros. Hoje, o Governo Federal aposta no Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras (Sisfron), que está em fase piloto desde novembro de 2014. Entretanto, até hoje, não temos resultados efetivos desse projeto. O ministro da Defesa, Aldo Rebelo, visitou Dourados neste mês para apresentar a tecnologia a comitiva árabe e garantiu, apenas, que a redução momentânea de recursos não vai afetar a continuidade do programa. Entretanto, no ano passado, a informação era de que os cortes poderiam atrasar o cronograma em 13 anos.
Enquanto, a União dá os passos iniciais para implantar projeto bilionário, a longo prazo, não é possível continuarmos a assistir a “vitória” da criminalidade. Todos os estados brasileiros são castigados pela falta de fiscalização na fronteira, principalmente Mato Grosso do Sul que precisa “dividir” seu aparato policial dentro das cidades e no monitoramento da área que seria responsabilidade federal, além de arcar com os gastos dos pequenos traficantes detidos. Já está comprovado que sem mudança de estratégia continuaremos a perder essa guerra.