A transferência dos moradores da favela da Cidade de Deus ainda não começou e corre o risco de ser barrada por mais protestos, a exemplo dos ocorridos nos últimos anos
A divulgação de que uma área em Campo Grande está em processo de “desfavelização” seria comemorada se a alternativa apresentada não levantasse outros questionamentos. As famílias serão recadastradas e transferidas da Cidade de Deus para 300 lotes públicos próximos que, segundo administração, estão sendo “preparados” para receber os novos moradores. A futura moradia ainda não é solução definitiva e está longe de resolver a situação de outros moradores. Há pelo menos outras sete aglomerações irregulares espalhadas em Campo Grande, não reconhecidas pela administração pública, mas que representam o avanço da crise econômica e disparidade social.
A Secretaria de Assistência Social (SAS) informou que todas as famílias serão recadastradas, um censo para descobrir quem realmente mora nos barracos e quem se aproveita da situação precária de outros moradores, demarcando território para tentar garantir casa própria via Agência Municipal de Habitação de Campo Grande (Emha). A saída dos moradores foi prevista inicialmente em 2014, quando seriam levadas para terreno no Jardim Noroeste, a 25 quilômetros de distância. A opção foi rechaçada pela maioria, sob alegação de que ficaria muito distante do local de trabalho. O impasse arrasta-se e ainda não tem desfecho. Os barracos destruídos são os vazios, aparentemente, das “favelados fantasmas”. A transferência dos moradores da favela da Cidade de Deus ainda não começou e corre o risco de ser barrada por mais protestos, a exemplo dos ocorridos nos últimos anos.
Os lotes oferecidos são vistos com desconfiança; a estrutura prevista está longe de ser a esperada, pois não é a casa construída, pronta.
A possível nova moradia não se enquadra na classificação de favela. Não se trata da clássica invasão em terrenos - maior parte, públicos - sem infraestrutura. Neste caso, será terreno público cedido. Mas o processo de marginalização social dos moradores ainda continuará. Em muitos casos, são desempregados ou detentores de subempregos, com renda sazonal. Se há pretensão de se cobrar pelo lote, mesmo que a valor considerado de baixo custo, é possível que muitos não consigam arcar com a mensalidade e, novamente, migrem para ocupar outras áreas ilegalmente. Somente com a concessão de alguns metros quadrados, sem edificação ou sem que plano social seja estruturado, dificilmente se poderá vencer o ciclo vicioso decorrente da falta de inserção econômica e social.
A favela da Cidade de Deus não é a única em Campo Grande. Embora a prefeitura reconheça apenas mais uma área - no Jardim das Hortências -, há pelo menos outros sete aglomerados, identificados em reportagem do Correio do Estado, publicada em julho do ano passado. São exemplos do êxodo rural ou de aldeias, como região da Vila Bordon, em que havia concentração de cerca de 15 famílias da etnia terena. Em todos os casos, pessoas que saíram de suas casas em busca de trabalho e melhores condições de vida. Porém, depararam-se com a crise econômica e desemprego. O abismo social torna-se maior e quase intransponível. Sem a ação do poder público, dificilmente terão oportunidades de reverter o cenário. Com corte de recursos, este amparo, porém, parece cada vez mais distante.