Como se fosse ontem, há 40 anos, o avião circundou a pista de Campo Grande, mostrando do alto o que o fundador da cidade chamaria de “campos da vacaria”. Um altiplano árido, algumas árvores frondosas, ruas largas definindo o centro, sem montanhas, rios, pontes, arranha-céus, com grandes áreas desocupadas e alguns galpões isolados. O acanhado aeroporto de Casa Blanca (Marrocos), ou de Kinshasa (Congo), onde passageiros desciam na pista em meio à chuva e ao vento se assemelhavam.
O prolongamento da via principal dependia de um “pontilhão”, que, após sua construção, não só levou os interesses e o movimento da cidade para o complexo da administração estadual, como serviu de trampolim a alguns atentados contra a vida.
As cidades se desenvolvem para o Oeste, embora a tendência da Capital seja aproximar-se do Leste desenvolvido, pois se encontra impedida de crescer para Oeste, em decorrência de terras da União, áreas restritas militarmente, incluindo o próprio aeroporto originário de uma base aérea e que, de internacional, apenas a ligação com São Paulo. Um ponto de chegada ou saída sem atrativos e infraestrutura, como postos de serviço, ônibus, restaurantes, farmácia, mas com um estacionamento privilegiadíssimo pela ação das multas, e um ponto de táxi, certamente, com reserva de mercado político.
A cidade é desprovida de bares nas esquinas, praias, parques, atrativos naturais ou referências espaciais, como as montanhas. A uma estrutura viária de Leste a Oeste proporciona o Sol no rosto. Por vezes, cheguei a idealizar uma praia localizada no fundo de vale, aproveitando os córregos Prosa e Segredo, que represados ofereceriam a prática da pesca ou piscinas públicas de água corrente, um espraiado de quiosques explorados por concessão municipal. Cheguei a imaginar a linha férrea existente circundando a cidade, dando uma dimensão cultural e turística para a cidade. Ledo engano!
Na verdade, a cidade se esvaziava nos feriados; seus moradores dirigiam-se para seus sítios ou fazendas em outras regiões. Embora existisse alguma identidade e orgulho dos nativos com a cidade, uma vez que a maioria das famílias mandava os seus para estudarem fora, para depois retornarem, ela, de fato, caracterizava-se por aqueles que aqui ficavam como um entreposto comercial, inicialmente do gado, na rota do “passo de viagem e depois, rota para os demais municípios.
Não haveria de ser diferente, pois a posição geográfica de Campo Grande atendia os objetivos estratégicos da Estatal Noroeste do Brasil, como diversificar o acesso ao norte do estado, dependente dos países fronteiriços e da bacia fluvial e a manutenção militar na região. Os econômicos era a exploração de minério, a extração madeireira, e uma rota que beneficiaria comercialmente São Paulo (como sempre). A estatal férrea sugeriria o planejamento urbano da cidade, com residências, unidades militares, e moradia de funcionários. Os trilhos direcionaram os fazendeiros aproximando-os das decisões políticas e interesses. Os militares que aqui “sentaram praça” cuja formação não se permitia a permanência dos mesmos na localidade por grandes períodos, não criaram qualquer identidade com a cidade. O objetivo era apenas a manutenção da ordem e impedir as idéias divisionistas, politicamente assumidas pela elite econômica.
De lá para cá, o que mudou foi apenas o crescimento desordenado da cidade, o abuso do adensamento habitacional, inúmeros prédios, residências comerciais, restaurantes garagens, invadindo o espaço e o passeio público, com a derrubada do verde nos fins de semana, a colocação de piso tátil em calçadas com difícil circulação. Os buracos (caso a parte), como nos queijos é o resultado das bactérias que se instalaram durante anos na administração municipal.
Já que a cidade não pode voltar ao passado, seria interessante que a inércia dessa população que impede seu movimento em direção ao futuro fosse vencida, pois é preciso se identificar com ela e saber qual a sua vocação sócio- política e econômica. ACORDA CAMPO GRANDE, já passou da hora!