Com todos os olhos voltados para o Congresso Nacional fica difícil para os parlamentares que se sujeitarem a este jogo saírem ilesos em futura campanha eleitoral.
O fim de semana, com certeza, foi de tensão e nenhum descanso da tropa de choque do Palácio do Planalto. Hoje, os deputados que fazem parte da comissão especial decidem se recomendam ou não o impeachment da presidente da República Dilma Rousseff.
Pelo teor do debate que se estendeu a madrugada de sábado, a maioria tende pelo parecer favorável ao afastamento, seguindo relator Jovair Arantes (PTB-GO). Dos 116 inscritos para debater o relatório, quarenta parlamentares posicionaram-se a favor do impedimento e metade contra. Um ficou indeciso.
O governo tenta, ainda, reverter o quadro desfavorável e reduzir a vantagem dos oposicionistas. Porém, está cada vez mais difícil sustentar a permanência de Dilma na presidência.
A clara tendência é que o colegiado dê o aval para o afastamento da presidente. O resultado precisará ser confirmado no plenário da Câmara e no Senado Federal.
Os deputados pró-Dilma já sabem que não tem como ganhar essa batalha. Em discurso durante debate do parecer do relator, Silvio Costa (PTdoB-PE) admitiu a derrota na comissão, mas avisou aos oposicionistas que “não vão colocar 342 votos no painel no plenário domingo”, referido-se à votação no próximo dia 17.
É nesta votação que o governo centra forças. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva mantou QG em Brasília para tentar fechar acordos em favor de Dilma. A promessa é que os aliados terão guarita na eventual nova fase do governo, que estaria sob a coordenação direta de Lula.
A grande cartada é o loteamento de cargos no primeiro e segundo escalão, chamado de “repactuação” da base pelo governo e “balcão de negócios” pela oposição. O processo do “toma lá dá cá” foi acelarado depois do rompimento oficial do PMDB com Dilma.
É evidente que os governistas tentam fidelizar apoio de alguns partidos médios e pequenos para, no mínimo, garantir abstenções na votação. No foco, estão PP, PROS, PDT e PTN e até mesmo alguns parlamentares do PMDB.
A explícita negociação foi alvo de denúncias de senadores, que pediram à Procuradoria-Geral da República que investigue Dilma e o ministro do Gabinete Pessoal da Presidência, Jacques Wagner pelo oferecimento de cargos em troca de votos. Para os oposicionistas, a estratégia tem pouco efeito político, por se tratar de “prática suicida” para os que aceitarem a proposta.
A barganha é ato de desespero do governo Dilma, que tenta se manter como pode; já era esperado que os governistas lançassem mão de todos os subterfúgios para evitar o iminente naufrágio.
Em relação aos partidos que aceitam a negociação, é claro demonstração de desrespeito da vontade popular. Com todos os olhos voltados para o Congresso Nacional fica difícil para os parlamentares que se sujeitarem a este jogo saírem ilesos em futura campanha eleitoral.
Os milhares de brasileiros que saíram às ruas em protesto vão continuar manifestando-se nas urnas. Que os políticos pesem se o cargo angariado nesse “balcão de negócios” vale o sacrifício futuro.