Vivemos em rede. Fisgados pela conexão, estamos sempre no feed, sempre disponíveis, nos comunicando com cada vez mais pessoas, em flashes temporais instantâneos. Comunicar, na nossa era, vai além de dialogar: é dispor 24 horas do contato com pessoas virtuais, em conversas digitais.
Ausentes do “ao redor”, a sensação é a de que nunca estamos onde queríamos/devíamos estar. Há sempre um link disponível e estamos, de fato, mais ao alcance de tudo. Para o bem e para o mal.
Em 2015, o estudo intitulado Educomunicação e redes sociais: caminhos para cidadania em meio ao esgotamento do diálogo e à escalada de ódio, feito pelo mestrando Douglas Calixto (USP), apresentou dados divulgados pela Secom (Secretaria da Comunicação Social), que apontam a internet como o meio de comunicação que mais cresce entre os brasileiros: “Pelo menos um quarto da população já acessa a rede diariamente, com uma intensidade média de 3h39 minutos por dia. [...]Apenas no Facebook, cerca de 61,2 milhões de brasileiros tiveram perfis ativos em 2014, de acordo com dados oficiais”.
Já outra pesquisa publicada em fevereiro de 2016, feita por estudantes da Universidade de Montana, nos Estados Unidos, mostra que os usuários das redes sociais a utilizam de maneira considerada pelos pesquisadores como “banal”: empregando táticas de autoexpressão íntimas para aliviar, na verdade, estresses emocionais. A pesquisa, intitulada “When More Information Does not Help” (Quando mais informação não ajuda), voltava-se para a avaliação comportamental de pessoas que, envolvidas em relacionamentos amorosos, utilizavam a rede social para diminuir as inseguranças com relação ao parceiro ou parceira.
Embora tivesse esse objeto específico, o estudo revelou comportamentos importantes do usuário das populares redes sociais. Ficou comprovado, por exemplo, que os usuários publicam na rede coisas que eles nunca diriam pessoalmente, assumindo máscaras que, consequentemente, não correspondem à sua verdadeira personalidade.
Essa criação de uma imagem digital, persuasiva e corajosa, tem gerado um interessante efeito: estamos sempre falando sozinhos. Entre curtidas e compartilhamentos, acentua-se nossa impossibilidade de dialogar com a diferença. É uma verdadeira guerra de opiniões da qual ninguém quer uma derrota pública, a ser compartilhada e comentada abertamente.
Entre a direita e a esquerda, entre a religião e o aborto, entre o feminismo e o patriarcalismo estão curtidas, compartilhamentos e comentários odiosos. Disfarçamo-nos de gênios da internet para vociferar nossos olhares finalizados e se instaura um paradoxo: estamos sempre disponíveis, mas não queremos conversar, queremos mesmo é persuadir (nas palavras do professor João Adalberto Campato Jr., em seu livro A comunicação persuasiva: teoria e prática (2015), “Persuadir consiste no processo em que o orador leva alguém a aceitar opinião que se lhe queira provar a respeito de questão controversa, fundadora de partidos contrários”).
Nesses embates polêmicos, em lugar da promoção de um debate em um espaço propício a isso, autointitulamo-nos aptos a encerrar todo e qualquer assunto (sobre qualquer matéria que a própria rede nos induzir). A marcha das opiniões finca-se num cabo de guerra infinito.
Nesse ciberespaço, terra de emojis e hashtags, a publicação de ideias em trocas de likes parece estar ganhando espaço em lugar das saudáveis discussões sobre pontos de vistas que diferem. O diálogo prescinde dois sujeitos ativos e não somente um doutrinador e um ouvinte, afinal.
Precisamos, talvez, transformar nossa rede de teorias e emoções à flor da pele em uma rede de troca de experiências verdadeiramente democrática. Lembremo-nos de que não estamos depositando nossos estresses emocionais ou incertezas em máquinas inanimadas ou em robôs desprovidos de sentimentos. Nossos estresses, angústias e intransigências alcançam outros seres humanos. Então, o que você deseja compartilhar?