Em 13 de setembro de 1775, o capitão Mathias Ribeiro da Costa fundou o Forte de Coimbra, a mando do então governador e capitão-general da Província de Mato Grosso, Luís de Albuquerque de Melo Pereira e Cáceres, a cerca de 100 km ao sul de Corumbá. Ele visava garantir a posse das terras portuguesas além-Tordesilhas, às margens do Rio Paraguai, que os castelhanos viviam reivindicando.
Passados 26 anos de sua fundação, entre 16 e 24 de setembro de 1801, os espanhóis deixaram a retórica e partiram para a prática bélica, envolvendo o Forte de Coimbra num cerco, a fim de conquistá-lo pelas armas e assim dominar o hoje Oeste brasileiro. Ricardo Franco e seus homens – em quantidade 15 vezes menor – resistiram ao ataque e repeliram o inimigo. A fé em Nossa Senhora do Carmo e a coragem daqueles homens mantiveram português aquele rincão.
Em 27 de dezembro de 1864, o Forte de Coimbra foi novamente atacado, agora por forças paraguaias: o primeiro choque de armas da Guerra do Paraguai! Desta vez, uma força inimiga de 2.500 homens lança-se contra suas muralhas. A resistência da guarnição do Forte, com apenas 115 homens, é comandada pelo tenente-coronel Hermenegildo de Albuquerque Portocarrero, capitão Benedito Jorge de Faria, tenente João de Oliveira Melo e tenente Balduíno José Ferreira de Aguiar. Também 70 mulheres ajudaram na defesa, confeccionando durante a noite inteira munição de fuzil, o que fez com que pudessem resistir por mais um dia. Destacam-se entre as defensoras do Forte de Coimbra dona Ludovina Portocarrero e Maria José Vila-Forte Melo, esposas do tenente-coronel Portocarrero e do tenente Oliveira Melo, respectivamente.
Mas o assédio de uma força 30 vezes maior fez-se sentir. Mais uma vez, robustecidos pela fé em Nossa Senhora do Carmo, os defensores do Forte de Coimbra puderam, por causa da munição para fuzil que se acabara, efetuar a retirada, sãos e salvos, até Cuiabá, na noite de 28 de novembro de 1864. Vencido o invasor, retornaram em 1868 para reocupar o Forte e fazer presente naquele chão a soberania do Brasil.
Em verdade, a história do Forte de Coimbra possui dois componentes indeléveis: a certeza de desafios e a devoção em Nossa Senhora do Carmo. Hoje, 241 anos depois de sua fundação, mais uma vez enfrenta outro desafio: a saída da Companhia de Infantaria do Exército Brasileiro que ali está e a possível vinda de um Pelotão de Fronteira, com efetivo muito menor.
Ainda é difícil prever qual a dimensão dos riscos e impactos dessa determinação para aquela imensa fronteira. Porém, ele não será pequeno para a comunidade do Distrito de Coimbra, que depende dos militares que vivem ali para sua mantença, seja comercial ou de infraestrutura (posto médico, transporte, ligação, abastecimento etc.).
Caberá agora à Prefeitura Municipal de Corumbá e eventuais parceiros, públicos e privados, a preservação desse valioso sítio histórico. Para que o Forte de Coimbra não tenha o mesmo fim de Albuquerque e Porto Esperança, talvez, agora, sonhos antes distantes tenham de virar realidade, como a ligação terrestre entre Corumbá e o Forte de Coimbra, para fomentar o turismo ecológico, de pesca, histórico e religioso, como a Festa de Nossa Senhora do Carmo, todo 16 de julho; a regularização das casas dos moradores civis da localidade; a criação de hotéis e pousadas para que o distrito se desenvolva sem a presença militar (como antes); parcerias com os órgãos interessados na preservação do Forte de Coimbra (tanto do seu aspecto material quanto imaterial), com maior divulgação no Brasil e no exterior, promovendo expedições, palestras em suas instalações, que vão do século XVIII até os dias atuais, criação de um campus universitário, por exemplo.
Enfim, ideias e soluções não faltam. Com efeito, o que realmente não pode faltar é a vontade de encarar esses desafios, para que o pior dos inimigos do Forte de Coimbra e seus heróis não se torne a indiferença da Nação que vem defendendo, com fé e heroicidade, há quase 250 anos!
Que Nossa Senhora do Carmo mais uma vez os ajude!