Ninguém quer por a mão no bolso e empurram a responsabilidade para motoristas e, consequentemente, aos passageiros.
A corda sempre arrebenta do lado mais fraco. O provérbio aplica-se ao que vem acontecendo atualmente no transporte coletivo de Campo Grande. A Agência Municipal de Transporte e Trânsito (Agetran) ampliou número de multas aplicadas por descumprimento dos horários.
O Consórcio Guaicurus, por sua vez, tem repassado os valores dessas penalidades aos motoristas, como se fossem os únicos culpados da demora. Eles protestaram, pois acabam prejudicados pelo impacto em seus salários.
Passageiros também sofrem os efeitos dessas medidas irresponsáveis. Para evitar o “peso no bolso”, ainda mais em tempos de crise econômica, os motoristas sentem-se forçados a abusar da velocidade, apressam a entrada dos usuários e até há casos em que “pulam” pontos de embarque para conseguirem chegar a tempo até o terminal.
O efeito da cobrança tem se invertido, pois não é o caminho para garantir as melhorias há muito tempo esperadas pelos usuários do transporte coletivo.
Na verdade, vários fatores são esquecidos antes de cobrar a pontualidade. Reportagem divulgada no Correio do Estado de ontem mostra que os horários das linhas foram estabelecidos há 15 anos e não tiveram alterações.
Não foram contabilizadas as transformações em Campo Grande durante este período, o que inclui aumento significativo na frota de carros, motos e caminhonetes que circulam diariamente pela cidade. Soma-se ainda o agravante dos buracos que tomam conta de ruas e avenidas.
Qualquer condutor já sabe quantas vezes precisa reduzir a velocidade em seu trajeto para desviar de um buraco, visando evitar danos nos veículos.
O mesmo ocorre com o motorista de ônibus. Espera-se que, novamente, não seja penalizado financeiramente pelo descaso da prefeitura com as ruas, caso tenha algum problema mecânico.
Os reais problemas são mascarados, incluindo a má-qualidade das vias e a quantidade insuficiente de ônibus para atender em determinados horários.
Dessa forma, seria possível preencher as lacunas dos atrasos sem forçar os motoristas a realizarem uma “corrida de obstáculos”, desviando dos buracos e superando os desafios de dirigir no horário de pico, onde há vários imprevistos, desde algum congestionamento a uma pane em determinado semáforo, que acaba resultando em caos temporário no trânsito.
Está evidente que o atual modelo não vem agradando os principais envolvidos: trabalhadores e passageiros. Entretanto, a prefeitura mantém visão limitada sobre a questão, informando apenas que cumpre seu papel de fiscalizar e aplicar as multas em caso de irregularidades.
Parece não haver preocupação na série de consequências com o fato de os valores das penalidades estarem sendo repassados aos condutores.
É preciso ampliar atenção com o transporte coletivo, o que exigirá envolvimento de nossos vereadores e do Ministério Público.
As reais soluções são proteladas, pois suscitariam necessidade de investimentos. Ninguém quer por a mão no bolso e empurram a responsabilidade para motoristas e, consequentemente, aos passageiros. Há anos as necessidade do transporte coletivo são negligenciadas.
As queixas repetem-se, as desculpas continuam, mas a tarifa sobe. Está evidente que mudanças precisam ser feitas, mas não pelo caminho tortuoso que a administração municipal vem buscando.