ão me lembro quando meu coração partiu-se pela última vez. Mas sei que dói. Certa vez, no início da juventude, dilacerada pela perda de uma paixão, alguém me disse: “Fica tranquila, não se morre disto”.
Mas, na época, eu tinha certeza de que não sobreviveria. E se os segundos que antecedem o orgasmo é chamado de pequena morte, o término de uma relação é a presença da morte em pessoa. Porque, como já disse Vinicius de Moraes, “o amor é a coisa mais triste quando se desfaz”. E embora as lembranças não sejam totalmente claras – ainda bem! – vejo nos olhos dos outros a mesma sensação de incompletude.
“E agora?”, questiona o jovem, diante da cama vazia, dos cômodos vazios, da falta do par de brincos na mesa de cabeceira, do roupão no banheiro, da lingerie pendurada no box (que ele detestava, mas que agora sente falta). Ah! As ironias do amor. Ou do que chamam de amor. Novamente é o poeta quem diz: “Da paixão faz-se o pressentimento, e do momento imóvel faz-se o drama”.
Amor ou paixão, não importa. A dor da perda é uma faca rasgando o peito devagar. E não há nada, absolutamente nada que tire aquela sombra da culpa, sempre à nossa espreita. Como espectador, não se pode fazer muita coisa. Um abraço, um carinho, e colo que é sempre bom. Mas, de repente, não é apenas um, mas dois. Depois são três.
Se agosto é mês de cachorro louco, julho está sendo o mês das separações. Talvez seja o outono tardio, as folhas caindo, a natureza se preparando para nova temporada. Pessoas também se renovam, também trocam de pele e voltam, senão refeitas, sem dúvida mais fortes.
Cada um lida com a separação à sua maneira. Uns se fecham em copas, outros anunciam aos quatro ventos, alguns aproveitam para desvendar o mistério de ser humano, absurdamente humano. Vão para dentro de si e revolvem antigas crenças, equívocos, expectativas, medos, carências e, às vezes, descobrem certo comodismo. Porque a gente se acostuma com tudo, até com o sapato que machuca. Por comodismo, a gente se acostuma até com as diferenças irreconciliáveis, pensando que é amor. A gente se acostuma com a indiferença, com a desatenção, com o vazio. A gente se acostuma, mas não devia. Porque isto vai nos ferindo lentamente.
Vai longe o tempo em que partiram meu coração pela última vez. Mas me lembro, ainda que vagamente, da terrível sensação de abandono. Da vontade de dormir e só acordar um ano depois. Por isto procuro dentro de mim algo que possa ser útil. Quem está fora do meu alcance, longe daqui, me preocupa. Assistir, impotente, à dor de quem se ama não é o melhor dos mundos. Por isto lanço mão de todos os santos, anjos, mantras e orações. E peço que a dor passe logo. Sei que tudo isto, felizmente, passa. Mas sei também que é preciso atravessar a dor de nossa própria solidão, para que não seja preciso nos buscar em outras metades. É necessário, embora difícil, compreender que somos inteiros, perfeitos e que o amor – o amor verdadeiro – está bem dentro de nós. Só é preciso coragem para bater à nossa porta.