Vivenciamos um modelo de saúde pública com custo milionário justamente porque o foco está em remediar...
O orçamento de Campo Grande para o próximo ano prevê redução de R$ 13,2 milhões para a área da saúde. Dado preocupante se consideradas as várias deficiências que deixam de ser atendidas neste setor. Pacientes precisam aguardar horas por atendimento em postos de saúde, enfrentam corredores superlotados em hospitais e há até casos de pessoas que morrem porque não conseguiram vaga na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). São problemas crônicos, cuja responsabilidade não pode ser atribuída apenas a determinadas gestões. Se elencássemos promessas não cumpridas nessa área, certamente, iriamos nos deparar com listas intermináveis. Há, obviamente, condições de fazer mais e falhas de planejamento que precisam ser corrigidas, principalmente se constatarmos o desleixo existente em relação à prevenção. Vivenciamos um modelo de saúde pública com custo milionário justamente porque o foco está em remediar, com tratamentos caros e muitas vezes tardios daquilo que não se diagnosticou precocemente.
Reportagem de hoje publicada no Correio do Estado nos leva a reflexão baseada no ditado popular bastante conhecido, mas esquecido no dia a dia de muitos: “prevenir é melhor que remediar”. A falta de rememorarmos esse truísmo está intrinsecamente ligada aos investimentos altíssimos da área da saúde, que jamais serão suficientes justamente porque o foco está equivocado. Atualmente, 37% da população de Mato Grosso do Sul (equivalente a 669 mil pessoas) sofre com alguma doença crônica. Médicos alertam sobre a necessidade de mudanças de hábitos, alguns bem simples, como cuidado com alimentação e prática de exercício físicos. Muitas vezes, elas ocorrem apenas depois dos sinais de alerta do corpo e pode já ser tarde para evitar um tratamento prolongado e custoso. Ainda, nesse debate sobre prevenção, inclui-se a atenção redobrada no trânsito, tendo em vista a alta demanda de pacientes vítimas de traumas, que superlotam hospitais.
Para tentar reverter esse quadro, é preciso, obviamente, a participação de cada cidadão, reavaliando comportamentos e fazendo exames preventivos regularmente. Mas, para atingir tais metas, é indispensável o envolvimento do poder público. E, então, aparecem os equívocos na gestão. Ainda é difícil agendar consultas e exames que, muitas vezes, demoram meses. Assim, em alguns casos, a procura por médicos ocorre apenas quando já ocorre algum problema de saúde e os primeiros sintomas aparecem. De nada adianta construir novos prédios de unidades de saúde, por diferentes bairros, se o paciente não encontrar médicos e outros profissionais da área quando precisa. Ou, pior ainda, não tiver vaga em hospital nos casos considerados mais complexos, como vem ocorrendo.
O governo federal erra, por exemplo, quando destina verbas para construção de postos, mas depois não ajuda o município a mantê-los, justamente a parte considerada mais complicada.
O sistema precisa ser revisto, ampliando as orientações à população e também o acesso às consultas e exames preventivos. Caso contrário, a estrutura da área da saúde continuará focada apenas na urgência e sendo setor com demanda inesgotável de recursos.