O erro mais evidente está bem perto dos sul-mato-grossenses, com o esquecimento da fronteira do Brasil com Paraguai e Bolívia
A cada 1h30min uma pessoa é assaltada em Campo Grande. A cada dois dias, alguém é assassinado. No País, são cerca de 160 mortos por dia. As estatísticas, da Secretaria Estadual de Segurança e do Anuário Brasileiro de Segurança, expõem não só a falta de investimentos para conter a violência, mas as deficiências de outros setores que também impactam no alto índice de criminalidade. Faltam estratégias conjuntas, organizadas para tentar conter um problema que não se limita a determinado município. Trata-se de uma guerra, que impõe derrotas diárias a centenas de famílias brasileiras e demonstra a ineficiência do poder público.
No dia a dia, a população precisa adaptar sua casa e programar comportamentos para tentar “escapar dos criminosos”. Por isso, muitos evitam parar em locais com pouco movimento em determinados horários, instalam grades e cerca elétrica nas casas ou comércios para impedir entrada de ladrões, entre outras medidas justificáveis como “rotinas de segurança”. A sensação é que, aos poucos, vamos nos tornando reféns desse avanço da criminalidade.
Atualmente, por exemplo, tem se tornado risco andar pelas ruas da Capital ou passear pelos parques públicos segurando o celular. Vários arrastões já foram registrados. Das 5,6 mil ocorrências de roubos nos nove primeiros meses desse ano, 54,4% foram para levar os aparelhos das vítimas. Certamente, não há como ter policiais em todos os bairros para evitar esse tipo de ocorrên cia. Mas, esse dado revela a existência de outros crimes, com esquema de receptação e tráfico de drogas, pois muitos usuários trocam os aparelhos pelos entorpecentes. Esses fatos foram revelados pelo secretário de Justiça, José Carlos Barbosa, que alertou sobre problemas que vão além do setor da segurança e avançam para questões sociais.
De fato, não há como pensar em contar a violência sem integração para planejar investimentos, envolvendo áreas como assistência social, educação e até mesmo saúde. Até agora, essas propostas não avançaram para além dos discursos políticos. Os orçamentos são direcionados de forma específica para cada área, sem contemplar essa possível parceria. Assim, seguindo essa linha principal dos gestores, cada secretário acaba direcionando as verbas para tentar cumprir suas obrigações e mostrar que está “fazendo sua parte”. Há nessa lista, inclusive, aqueles que tem seus próprios interesses políticos e aí o foco perde-se completamente.
Na sexta-feira, os chefes dos três Poderes (Michel Temer, presidente da República; Carmén Lúcia, do Supremo Tribunal Federal; e Renan Calheiros, do Senado) reuniram-se para debater segurança. Esse tema, que deveria ser prioridade nacional, acabou não sendo o foco principal do encontro, que serviu para acalmar os ânimos diante de críticas que sucederam operação que prendeu integrantes da polícia do Senado. Espera-se que esse assunto volte à pauta como real interesse.
Infelizmente, estamos perdendo a guerra. As reações ainda ficam só no discurso, pois esbarram na falta de planejamento e na inversão de prioridades. O erro mais evidente está bem perto dos sul-mato-grossenses, com o esquecimento da fronteira do Brasil com Paraguai e Bolívia, por onde entram todos os dias armas e drogas levadas para todos os estados.