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OPINIÃO

Octavio Luiz Franco: "A paixão que nos move"

Coordenador do S-Inova Biotech, professor do programa de pós-graduação em Biotecnologia da UCDB

Redação

01/11/2016 - 01h00
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Nos últimos anos, inúmeros cientistas têm escrito sobre ciência. Invariavelmente temos tentado popularizar a ciência em um país extremamente carente de treinamento qualificado e educação de ponta. Por inúmeras vezes, temos demonstrado como funciona a carreira de um pesquisador, como ela começa, se desenrola e finaliza. Escrevemos como atua um cientista de ponta e como um aluno pode vir a ser um cientista do amanhã. 

Entretanto, o que poucas pessoas vêm é o combustível que move um cientista. Este fantástico combustível propulsiona um pesquisador a trabalhar por longas horas a fio, a nunca se desligar completamente, a trocar parcialmente (ou totalmente em alguns casos) sua vida particular por uma profissão inclemente, mesmo recebendo salários que estão longe de nos tornar milionários. 

Às vezes, nos pegamos trabalhando domingo à tarde, enquanto vemos nossos filhos e entes queridos se espreguiçarem no sofá sem nunca imaginar receber uma hora extra. Eu particularmente quase todos os dias acordo as 4:30 da manhã, e isto inclui os domingos, afim de responder todos os e-mails, documentos, artigos e coisas afim de que um cientista faz rotineiramente. 

E quando pensamos na lógica para isso tudo, imediatamente, imaginamos que o cientista realmente não pode ser um cara comum, mas sim um workaholic inveterado que não tem nada mais a fazer do que ser uma traça de livros ou um rato de laboratório. Entretanto, a verdade não é bem esta que se desvenda sobre os olhos dos menos preciosistas. Os pesquisadores apresentam vidas normais como todos. Alguns como eu, tem família, cachorros, cavalos e toda a sorte de diferentes hobbies. 

Nós cientistas, temos nossos divertimentos e nossos próprios amores. Então retorna-se a pergunta. O que nos move nesta direção incauta e pedregosa? A resposta não consiste no vil metal. Ser cientista não consiste na busca de uma maior renda financeira.

Conheço vários cientistas que já colocaram dinheiro do próprio bolso para realizar experimentos. Eu mesmo já gastei a devolução do imposto de renda comprando uma centrifuga no começo de minha carreira. Assim a única resposta plausível em minha mente me sugere que o pesquisador continua simples e puramente por uma paixão insana. Este ardor pode ocorrer pelo pelo conhecimento, pela curiosidade da descoberta, pelo prazer em ajudar as pessoas ou ensiná-las a fazer um mundo melhor. 

Mas a única resposta aceitável para um pesquisador fazer o que faz consiste em paixão simples, pura e cristalina. Entretanto, como em todos os relacionamentos a paixão se modifica, vai sendo polida e pode ou não se transformar em uma pedra preciosa que brilha e atrai o olhar.

A paixão, que no início da carreira juvenil do pesquisador, impulsiona o mesmo a fazer inúmeras loucuras como a trabalhar trinta e seis horas sem descanso ou a inverter os horários e trabalhar de madrugada para ter um laboratório mais vazio e tranquilo, se transforma em amor com o passar dos anos. Este amor, se bem trabalhado em um grande ego contido, faz com que o pesquisador continue trabalhando na mesma intensidade, mas em doses mais ou menos comedidas. 

Neste momento o pesquisador começa a transmitir o sentimento e outros se inebriam com ele, sendo afetados diretamente e iniciando uma paixão nascente. Como dizia um antigo amigo, não fique triste por estar pobre. Não é o dinheiro ou a fama que nos move. Nossa cachaça é outra. A ciência está vigilante ao nosso lado, atuando sabiamente para solucionar os problemas de nossa sociedade.

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