Caro leitor, apresento uma inusitada proposta (irrecusável ou não, a depender do ponto de vista): um conto sobre a Antiguidade Oriental, tendo como cenário a longínqua Babilônia, já revisitada pelas narrativas de Voltaire, mas sempre propícia para, com artifícios de metáforas e ironias, refletir sobre incidentes atuais.
Passaram-se vários séculos após o encontro de Formosante e Amazan, registrado ricamente por Voltaire.
Sabe-se que a Babilônia atingiu seu auge durante o reinado do feliz casal, que governou com justiça e magnanimidade, sempre ouvindo os conselhos da sábia fênix. Esta, tempos depois, continuava a viver no reino, mas nem os herdeiros do casal, nem o restante da Corte faziam questão de ouvi-la.
A Babilônia ainda exibia a pompa dos palácios e o esplendor das festividades, tão infindas quanto a prosperidade oriunda de Tigre e Eufrates parecia ser. Mas, percebia-se que as luxuosas sedas estavam corroídas por traças, e os candelabros de ouro não mais distinguiam a luz perante as sombras.
Várias gerações deixaram de cultivar o espírito, que se tornou frívolo, mesmo entre os detentores dos mais rebuscados títulos. As leis eram distorcidas, sendo a medida aplicável a que melhor compatibilizasse com o tilintar do ouro. A administração do reino era posta sobre um infame balcão de negócios.
A educação, que há tempos não recebia um grão de areia sequer, era algo tão decadente que os cortesãos preferiam não tocar no assunto, sob pena de não aproveitarem suficientemente os banquetes. Os filhos de seus filhos assim também eram moldados e preferiam exercer de pronto importantes funções mesmo sem nada saber, com um profundo desprezo pelo ensino.
A fênix, após viajar pela Babilônia reiteradas vezes e constatar tão lamentável cenário, chorava desoladamente do ponto mais alto do palácio real. Suas lágrimas, com alto poder curativo, perpassaram corações e mentes dos humanos atingidos. Estes tornaram-se irreconhecíveis, íntegros e defensores das leis, da justiça e da educação.
Quando não perseguidos (e sumariamente executados), ao menos foram isolados pelos antigos pares, tanto no que concerne à opinião pública (tão manipulada que o Oráculo de Delfos, existente séculos depois na Grécia, seria um reles aprendiz diante de sociopatas de tamanha perversidade) quanto em relação aos espaços públicos, sendo desacreditados nos tribunais, nos templos e nas escolas (aliás, nesta época, um certo provérbio difundiu-se, e, na falta de uma tradução melhor do idioma caldeu, segue-se uma um tanto anacrônica: “não tão difícil é conseguir uma cátedra quanto manter-se nela”).
Infelizmente, Babilônia faria com que Sodoma e Gomorra parecessem inocentes e nem mesmo um oceano de lágrimas da fênix a salvaria da iminente destruição.
A fênix percorre o mundo, século após século. Ao renascer das cinzas, traz consigo a esperança do novo em busca do amanhã. Aliás, mesmo sem ser vista pelos humanos (que há muito perderam tal capacidade), ela continua a oferecer-lhes lágrimas curativas, como uma última chance de despertar-lhes a consciência, antes da autodestruição resultante de seus atos ímprobos.