Eu não estou aqui. É sério. Neste exato momento, enquanto escrevo, estou em outro lugar. Qualquer um, menos aqui diante do computador digitando esta crônica.
Aliás, quando me sentei para escrever o tema era outro. Bem diferente. Mas à medida que escrevo o roteiro muda. Os dedos não me obedecem. Basta um milésimo de segundo para perder o foco. Às vezes nem isto. Isto não é bom nem ruim. Apenas é.
Pelo menos foi o que aprendi tentando meditar. A meditação alivia a culpa de nunca estar presente. Meditando tenho consciência desta ausência permanente e incômoda. Da pura aflição que responde pelo nome de ansiedade.
Ansiedade é exatamente isto: estar preso na roda do tempo. No futuro e no passado. Ansiedade que é filha de uma mente inquieta e voraz porque não lhe basta apenas este exato instante. O agora. Ela, a mente, quer mais. Quer pensar um segundo adiante ou um ano atrás, ou mais. De um salto ela mergulha no passado distante ou num futuro imaginário. Às vezes aterrorizador. A ansiedade é um bicho feio demais. Um monstro que carregamos no colo dia após dia. E mesmo com todo peso é muito difícil deixá-lo. Não existe descanso, nem pausa, nem nada.
No intervalo entre uma palavra e outra eu penso um livro inteiro. Uma vida inteira. Ou uma morte, tanto faz. No seu ápice, imitando a própria palavra, ela causa ânsias. Entra pelo corpo adentro como um ladrão que entra numa casa, tarde da noite, para roubar as coisas mais valiosas.
A ansiedade rouba nossa energia – que pode se chamar de paz. Como um intruso mal educado vai jogando fora o que acha que não serve, vai tirando coisas do lugar, desarrumando cômodos, espalhando a poeira dos sapatos, fazendo barulho ensurdecedor. A ansiedade se alimenta das nossas quimeras e, principalmente, da nossa boa vontade.
Eu disse que não estou aqui. Mas não é de todo verdade. Nem tampouco mentira. Faço um esforço danado para pegar cada palavra. Transpiro, palpito, reclamo, me aborreço, grito. Não posso deixar escapar as frases. São elas, apenas elas que me salvam do caos.
Nem que seja por uma centelha, um mísero instante, eu consigo agarrar uma ideia, encher o peito com a inspiração bem longa e rápida, antes que ela volte e me tome tudo. Ela se intromete nas vírgulas, nos pontos, nos sinônimos e na poesia que não faço. Mas sinto. Escrevendo é quando vivo.
A ansiedade é uma onda gigante, um tsunami.
Chega destruindo tudo que vê e até o que não vê. É a sombra que me persegue em todos os lugares dia e noite. Ela mora no peito e aperta com força o estômago cada vez que respiro. E quando me julgo consciente ela cria uma ilusão, um artifício.
Ontem, por exemplo, aproveitou-se de um descuido e me trancou no banheiro. Achei que fosse morrer. Mas resisti. Usei todas as ferramentas ao meu alcance e – Ufa! –abri a porta. Ela gosta de me dar sustos.
Portanto, melhor colocar um ponto final, antes que ela volte e bagunce o texto. Depois vou tomar um chá de cidreira com rivotril. Não custa prevenir.