Se a oferta do produto não fosse aceita, fatalmente o empresário estaria fadado a um mar burocrático e de entraves que o impediria de contratar o empréstimo, inviabilizando o projeto
Um vendedor sempre tenta empurrar o máximo de produtos possíveis para o cliente, na tentativa de aumentar sua comissão de vendas e, assim, elevar a renda. Porém, a prática vista com bons olhos no mercado varejista pode ultrapassar o bom senso e ser considerado forma de pressão desagradável e acintosa. A denúncia feita pelo presidente da Superintendência de Desenvolvimento do Centro-Oeste (Sudeco), Antônio Carlos Nantes de Oliveira, é extremamente grave, pois mostra comportamento censurável e que pode prejudicar setores importantes da economia de Mato Grosso do Sul.
A Sudeco informou que vai acompanhar, caso a caso, a liberação de empréstimos aprovados pelo Fundo Constitucional do Centro-Oeste (FCO), depois de ter recebido a denúncia de que gerentes do Banco do Brasil estão pressionando empresários da indústria e do comércio de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás a comprar produtos como título de capitalização, seguros e poupanças em troca do aval de concessão de recursos do FCO. A informação foi repassada à superintendência por pelo menos três federações e associações empresariais de MS e divulgada na reunião prévia do Conselho Deliberativo do fundo (Condel).
A insistência de funcionários do banco explicaria a desistência dos empresários, além do índice de rejeição aos pedidos de liberação via FCO. Se a oferta do produto não fosse aceita, fatalmente o empresário estaria fadado a um mar burocrático e de entraves que o impediria de contratar o empréstimo, inviabilizando o projeto. No afã de aumentar a cartela de clientes, esses gerentes podem ter causado dano maior, ao barrar a instalação de empreendimentos que poderiam ter sido benéficos para o desenvolvimento dos estados, com geração de empregos e recursos para as regiões.
Na reportagem divulgada pelo Correio do Estado, a assessoria do Banco do Brasil respondeu que “investe no aperfeiçoamento do atendimento (...), respeitando a legislação, normativos internos e recomendações dos órgãos reguladores”. Também afirma que a decisão final de adquirir produto ou serviço é do cliente e que a instituição não compactua com qualquer prática diferente. Esperava-se uma resposta mais contundente. Esperava-se que divulgasse que as denúncias seriam investigadas, e os responsáveis, punidos.
Não é de hoje que há registro de consumidores indignados nas procuradorias do consumidor de todo o País sobre a venda casada recorrente em insttuições bancárias, exatamente o caso em questão. Apurar as queixas desses empresários é de suma importância para sanar uma dúvida levantada pelo superintendente da Sudeco: a sobra de R$ 3 bilhões do FCO é decorrente da real falta de demanda ou da dificuldade criada para liberação? Este questionamento, por si só, deveria acender o alerta no banco. A inquirição interna não seria vista de forma negativa pelos clientes; ao contrário, mostraria a preocupação para que a verdade venha à tona, mesmo que signifique consequências drásticas.