Persistem pela história diversas discussões envolvendo a Filosofia. Questões como: o que ela é e quais seus objetos de estudo são muito debatidas. E com a votação da MP 746/2016 e as mudanças na BNCC (Base Nacional Comum Curricular), referentes à reforma do Ensino Médio, novas dúvidas aparecem, tais como: o papel dos professores e alunos na construção da identidade da disciplina, os benefícios de sua manutenção na grade curricular da educação básica e até mesmo quem se interessaria por sua extinção. Por ora, atentemo-nos a sua utilidade. Por que e para que Filosofia na educação básica brasileira do século XXI?
A Modernidade trouxe consigo um rápido desenvolvimento e intenso consumo. Esta época vende aparência em vez de realidade e, com isso, há exagerado avanço das indústrias alimentícia, farmacêutica e cultural, agravando a substituição de experiências humanas por objetos de consumo. Nosso tempo mostra sinais de que não precisa mais dos “serviços” da Filosofia, quase sempre lenta e densa, para atender às demandas do cidadão comum, evidenciando o desconhecimento da importância do filosofar.
Similar à fala do Bobo da Corte ao Rei Lear, não deveríamos ter evoluído antes de termos ficado sábios. Não conseguimos lidar com os novos paradigmas apesar das ferramentas nas mãos. É exigido de quem trilha este caminho que “se coloque além do bem e do mal” — segundo recomendação de Friedrich Nietzsche — e dos valores dominantes, isto é, saiba como as ferramentas atuam e, a partir daí, reflita sobre suas funções e tome melhores decisões a favor da sociedade. E não é justamente este o objetivo do olhar pacato, de incessante leitura, pesquisa, abstração e elaboração de argumentos?
Contrariando insossos conhecimentos orgulhosamente chamados de úteis, a Filosofia, assim como as matemáticas, é mais que uma ferramenta. As matemáticas leem a natureza, a Filosofia permite ler o mundo, as sociedades e as ações humanas com um olhar estrangeiro, para encontrarmos, dada tal perspectiva, o caminho mais seguro para fecharmos as feridas de nosso tempo.
Ela possibilita às pessoas notarem a presença de um vasto mundo, para além do oferecido no cardápio do sucesso. Sem as perspectivas fornecidas por ela, propõe-se um ensino prático, tornando alunos em técnicos, peças úteis ao progresso.
Restringi-la a parcelas ínfimas da nação extinguirá sua participação na formação do pensamento brasileiro. Alunos esquecerão que o saber desenvolve e maximiza o sujeito, fazendo-o tomar melhores decisões. Em qualquer ofício, refletir sobre a prática favorece a produção de qualidade, não por meio do estudo acadêmico da teoria filosófica, mas sim pela percepção das entrelinhas, as quais dão sentido à atividade. E a melhor lente para visualizar tal fenômeno é a Filosofia.
Agora, já é possível observar o papel desta disciplina na sociedade. Resta saber qual modelo de país queremos para o futuro. Para formar jovens com maior capacidade reflexiva sobre o mundo, problemas sociais contemporâneos e suas escolhas individuais, ou seja, com uma visão que extrapole a obviedade da vida proposta pela cultura ocidental, torna-se imprescindível oferecer uma Filosofia capaz de reunir esses temas e ir além do estudo raso da história, como ocorre atualmente. Contudo, um quadro ainda pior seria a extinção desta disciplina, alienando o aluno do seu papel como sujeito da construção do nosso Estado democrático de direito.