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Paulo Cabral: "Quatro horas não bastam!"

Paulo é sociólogo e professor

Redação

20/02/2017 - 00h00
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Há aspectos da polêmica em torno da extinção da disciplina de literatura brasileira do currículo do ensino médio de Mato Grosso do Sul, que merecem reflexão. Estudei em uma época quando, concluído o ginásio, o jovem já delineava uma escolha prévia de seu futuro profissional, optando entre os  cursos normal, (magistério); científico, (ciências exatas  e biológicas) e clássico,  (ciências humanas). Havia ainda os cursos técnicos, contabilidade o mais tradicional, ao lado de outros vinculados a diferentes ramos industriais.

No clássico, estudávamos história, geografia, filosofia, sociologia e línguas; latim, português, francês, inglês e espanhol, que eram trabalhadas sem  fracionamento, integralmente; gramática, redação e literatura, em diálogo permanente, dialético, promovendo sinergia entre si. Literatura abrangia teoria e análise literária, decisiva para a conformação e confirmação de nossa visão de mundo.

O programa era distribuído  nos três anos do curso, de modo a garantir formação e informação suficientes para a progressão dos estudos e/ou para a assunção de posições no mundo do trabalho. Mas, não havia caixinhas, disciplinas isoladas, a matéria era trabalhada em seu todo. Portanto, a mudança agora introduzida parece ser o resgate de alguma coisa que já existiu no passado e funcionou bem.

Como reforço, vale lembrar a evolução do ensino médico no Brasil, cujo  modelo,  centrado no currículo por disciplinas, chegou a um extremo de especialização e esgotou-se.  Na década dos 90, foi preciso um intenso esforço de sistematização para se criar um novo paradigma, sugerido pelas diretrizes curriculares para a área da saúde de 2001, e ratificado em 2014, determinando a adoção de metodologias ativas para os cursos de medicina. Também foram propostos o ensino orientado à comunidade e o currículo integrado.

Trata-se de uma forma de organização dos conteúdos não mais por disciplinas, mas sim em torno de questões estruturantes capazes de mobilizar  e integrar o conhecimento de diferentes matérias, as quais vão sendo introduzidas de forma cumulativa, à medida em que se apresentam os desafios a serem equacionados, superados. Assim, acontece um processo de aprendizagem significativa, ou seja, com sentido para o estudante, que não estará apenas retendo um conhecimento para responder a uma questão de prova, mas sim compreendendo aquilo que estuda, realizando a apropriação do conhecimento. 

Logo, a mera presença  de uma disciplina no currículo não garante a aquisição do conhecimento. Quanto aos aspectos corporativistas, é preciso ter em conta que os professores de gramática, de redação ou de literatura, antes de serem especialistas, na qualidade de licenciados, habilitados em Letras, são aptos a atuar em qualquer das três áreas; portanto, em si, as mudanças não importam em prejuízo a esses profissionais. Há, contudo, um aspecto que merece ser repudiado,  a diminuição da carga horária destinada ao ensino de português, nossa língua. Afinal, ao reduzir em vinte por cento o tempo para essa matéria, torna-se impossível trabalhar adequadamente o conteúdo antes distribuído entre as três disciplinas.

Se é importante contar, é importante também ler e escrever, competências fundamentais que se adquirem com motivação, estímulo, explicações, exercícios, orientação, trabalho, muito trabalho e, para tanto, é necessário tempo. Quatro horas semanais não bastam!

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