Em novembro de 1992, o Correio do Estado publicou uma matéria sobre o resultado da XII Mostra Sul-Mato- Grossense de Teatro. Entre as premiações, destacou duas peças nas quais atuavam 14 meninos de rua atendidos pela Casa Dom Bosco, onde eu era arte-educador.
De meninos abandonados nas ruas da cidade a estrelas que brilham na frente e atrás do palco, em relação de igualdade aos maiores artistas de teatro de Mato Grosso do Sul.
No dia da entrega dos prêmios, esses meninos, entre 8 e 14 anos, deliravam de felicidade ao sentirem-se reconhecidos pelo seu trabalho. Subiram ao palco e literalmente choraram, ao serem aplaudidos e reconhecidos, numa espécie de negação temporária da marginalização e do sofrimento de suas verdadeiras vidas.
Um momento de relação com um mundo que os negou desde a mais tenra idade. Além do abandono familiar: a fome, o frio, as drogas, o sono amedrontado nos cantos sujos da cidade e toda forma de violência inerente a quem vive nas ruas.
Suas vivências foram matéria-prima para a criação e apresentação de várias peças nas suas comunidades de origem, bem como para essa participação especial em duas peças que concorreram na Mostra Estadual de Teatro.
Em “América 500 Anos”, direção de Haroldo Garay, os meninos contracenaram com atores experientes. Cenas históricas, como a chegada de Colombo na América ou o arrastão nas praias cariocas, quando atacam de surpresa, vindos inesperadamente do fundo do Teatro Aracy Balabanian, batendo no chão e gritando assustadoramente para o público.
Em seguida, esses mesmos 14 personagens são adormecidos pelas palavras do poder mercantil, quando cai uma imensa grade de ferro separando-os. Presos, são mortos a tiros, um a um, representando o massacre do Carandiru. A peça ganhou os prêmios de melhor pesquisa e melhor trilha sonora, sendo a atuação desses meninos fundamental para o sucesso do espetáculo.
A outra peça em que atuaram foi “Causos do Pant”, espetáculo criado por Pedro Fenelon, Wilson Mota, Jorge de Barros, Joelma Bertho e eu, encenando a primeira parte do “Livro de Pré-Coisas”, do poeta Manoel de Barros. Os meninos trabalharam na produção cenográfica, culminando com a premiação de melhor cenário, prêmio recebido elogiosamente das mãos da atriz Cássia Kis.
O Pantanal era o cenário, para o qual o palco foi suspenso um metro, com módulos, deixando um espaço no centro para uma piscina infantil que o público não via. Quando Bernardo, o personagem de Manoel de Barros, caía inesperadamente nas águas, respingava no público. Árvores e arbustos vivos foram colocados por todo o palco, criando um cerrado mágico e quase verdadeiro. Uma chuva caía de um cano de PVC todo furado por broca de dentista, com raios e trovões.
A beleza misteriosa dessa arte era uma fruição dos meninos que se reproduzia no objeto artístico que encantava o público.
Hoje, quase não existem meninos morando nas ruas centrais de Campo Grande; mas, nessa época, era possível encontrar mais de 30 em uma única praça. Fazia ainda dois anos que o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) havia sido promulgado, e o Serviço de Acolhimento somente iniciaria suas atividades em 1994.
Da escuridão do abandono e da violência das ruas para os holofotes de um palco de teatro, uma simples atividade promovendo sentimentos que curam, tanto o menino que se afasta do social, como a doença do ser social que nega o menino. Comunicação estética acendendo luzes em meio a trevas, comunhão, arte que ilumina.
* Professor de Artes da UFMS