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ARTIGO

Luiz Fernando Mirault Pinto: "Mandrake aí!"

Físico e administrador

Redação

03/03/2017 - 02h00
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No artigo “Parou por quê? Por que parou?” (Correio do Estado, em 30 de junho de 2015), discorri sobre a razão da paradeira da economia de então “... o espalhafato de notícias replicadas não só denigre a parte boa e produtiva brasileira, mas impede o funcionamento da ‘corrente’, da economia, das engrenagens que devem girar para manter a máquina...”, e que ainda subsiste. 

Para os jovens e os que não tiveram infância, conto apenas que Mandrake era um personagem famoso dos gibis dos anos 30, um mágico ilusionista que combatia os criminosos usando a hipnose como arma e, assim, aplicava um golpe paralisante aos malfeitores, revisitado hoje pela “Lava Jato” e suas “delações coercitivas e conduções premiadas”. 

À semelhança, a “brincadeira de estátua”, que leva as crianças a correr atrás das outras gritando “estátua”, paralisando-as na posição em que se encontram até que não resistam ao engessamento e saiam do cenário, o momento da paralisação nacional está por conta das expectativas geradas pelas investigações seletivas e indiscriminadas do judiciário, pelo “rabo preso” dos representantes do legislativo, pela incerteza dos planos socioeconômicos do Executivo, pelo preconceito enraizado na classe média, o sentimento de poder da elite branca, e o descrédito nas instituições públicas pelo povão. Naturalmente, a falta de criatividade e competência dos gestores públicos apadrinhados também e agora com receio de serem fiscalizados e levados às barras da Justiça.

De um lado, existe doze, quatorze, vinte quatro... milhões de desempregados, com subempregos, salários aviltantes, informalizados, despreparados, desanimados e desacreditados. Do outro, um contingente de aposentados, que sustentam parte dessa massa ociosa, ainda com ameaça das sombras das políticas neoliberais, privatizantes e terceirizantes, sempre prestes a escorchar seus benefícios já aviltados. 

Como pano de fundo, obras de grande porte paralisadas por todo canto do País em diversos setores, todos responsáveis pela infraestrutura do desenvolvimento, desde a malha viária (pavimentação, manutenção e restauração) de estradas, portos ferrovias, prédios públicos, escolas, hospitais, obras de saneamento básico, abastecimento e, aliado a isso, as restrições aos investimentos governamentais, e a manutenção de colaboradores questionáveis, afirmações useiras, promessas pífias e ardilosamente populistas. 

Como se não bastasse, o quotidiano é retratado como uma sucessão de mazelas, acidentes, violências praticadas, rebeliões alarmantes, descaso de autoridades, falta de controle sanitário nas endemias e epidemias assolando indiscriminadamente a população, a ganância do mercado que alimenta a inflação, e as notícias desesperadoras do desenrolar da economia, seus índices, perspectivas negativas de desenvolvimento e a naturalmente a atribuição da responsabilidade a um sujeito indeterminado.

Um oásis de torpor se contrapõe na difusão televisiva diária de folhetins onde atores desfilam suas interpretações aos gritos e desavenças, nos inúmeros realities globalizados alimentando o “voyeurismo” enrustido e as disputas culinárias, lutas marciais exacerbando os instintos primitivos, e programas de entretenimento retratando a intimidade de celebridades.

Como sempre, a culpa da paradeira foi devidamente introjetada e assimilada pelas cabeças iluminadas e embotadas respectivamente, e está na responsabilização por uma crise urdida e atribuída a uma pessoa, um governo e um partido, mesmo sabendo que os fatos mostravam as dificuldades oriundas da mundialização. O desemprego de jovens na Europa, a movimentação migratória do leste europeu, a fuga em massa do oriente médio, a desaceleração econômica asiática, a insatisfação com as políticas liberalizantes na América do Norte, o aumento do tráfico sem fronteiras, as barreiras alfandegárias, a ameaça terrorista, e o preço das commodities chinesas são alguns dos fatores que nos fazem pensar que estamos no paraíso.

Tirando alguns muitos ladrões de cena, escroques financeiros, chefes de facções, políticos mal-intencionados, gestores “apadrinhadamente” incompetentes, restituindo a independência dos poderes constituídos, e cada qual fazendo sua parte, tudo voltará à normalidade e substituiremos “Mandrake” por “The Flash”, desde que guardemos os celulares na gaveta!

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