A busca por mostrar seus feitos para a população acaba desvirtuada no momento em que símbolos tornam-se mais importantes que os próprios atos
Todo político, com pretensão de continuar sendo eleito, tem preocupação exacerbada com a imagem. Essa busca por mostrar seus feitos para a população acaba desvirtuada no momento em que símbolos tornam-se mais importantes que os próprios atos. Obviamente, a legislação impõe limites para que não haja caracterização de promoção pessoal e violação ao princípio da impessoalidade. Por diversas vezes, essas regras já foram extrapoladas. Placas são afixadas antes mesmo de as obras começarem. Totens são espalhados pelos bairros para ostentar obrigações cumpridas. E, pior, alteram-se cores de prédios públicos para tentar deixar implícita no imaginário popular marcas pessoais. Aos poucos, a real personalidade, com os marcos que representam a cidade, acabam se perdendo em meio a essa injustificada busca pelo exibicionismo.
Há casos em que a tentativa de deixar marcas acabou resultando em efeito negativo. A gestão de Alcides Bernal, por exemplo, colocou placas em dezenas de obras anunciando a retomada. Tornaram-se símbolos da divulgação de fracasso, porque as construções – algumas herdadas ainda da gestão de Nelsinho Trad – continuaram esquecidas. A reflexão é importante para que tenhamos olhar mais crítico às decisões de gestores. A divulgação de atos administrativos, receitas, despesas e até mesmo de informações que prestam serviço ao cidadão é dever que precisam ser cumpridos. Tanto que há até instrumentos legais para obrigar os gestores a adotarem essas medidas, a exemplo da instalação dos portais da transparência.
Na última sexta-feira, o Correio do Estado divulgou reportagem mostrando que alunos de pelo menos três escolas estaduais de Campo Grande estariam proibidos de usar uniformes na cor azul, distribuídos durante a gestão de André Puccinelli (PMDB). A orientação feita em comunicado interno da Secretaria Estadual de Educação era para que os alunos usassem as camisetas da cor verde, entregues na gestão de Reinaldo Azambuja (PSDB). Poder-se-ia justificar a necessidade de garantir segurança e organização por todos estarem com as mesmas cores. Mas, seria um pedido incoerente com a realidade dos alunos, pois alguns receberam apenas uma peça e, por isso, tiveram de recorrer ao modelo antigo. Em nota, a restrição foi negada pela Secretaria.
A mudança de cores, ainda em 2015, na época que foi feita a primeira compra pela atual gestão, já havia resultado em polêmica. A justificativa foi de que a cor estava atrelada à bandeira de Mato Grosso do Sul e também à importância do meio ambiente para o Estado, negando qualquer relação com marcas de administração. Até por questão de economia, neste momento de crise, não há motivos para impedir os alunos de usarem a cor antiga e, ao que tudo indica, esse equívoco já foi corrigido.
Espera-se que futuros governantes não façam alterações desnecessárias e contribuam para criar marcas representativas da identidade de MS ou de Campo Grande. É preciso que gestores tenham preocupações mais amplas, em deixar marcas de seu trabalho representadas nas conquistas para a população, cuidando das reais prioridades.