A prefeitura tem o dever de reagir na mesma proporção dos problemas... Há absurdos ocorrendo todos os dias e eles precisam ser combatidos.
A queda da porta do ônibus que fazia a linha Moreninhas/Shopping (061), na manhã de ontem, no Bairro Universitário, em Campo Grande, é apenas uma amostra da situação deplorável da frota do transporte coletivo urbano. Por sorte, passageiros não ficaram feridos. Trata-se, obviamente, de situação inusitada, mas as dificuldades para quem depende desses veículos são rotineiras. Lotação, demora, falta de conforto, terminais sucateados e ônibus velhos e em quantidade insuficiente para atender à demanda são reclamações que se repetem há anos, sem alterações. Isso porque o transporte coletivo permanece nas mãos do mesmo grupo, apesar das exigências contratuais serem explicitamente descumpridas diariamente.
Mesmo com irregularidades, a passagem continua a subir praticamente todos os anos, com a justificativa de que outros gastos, a exemplo do diesel ou do pagamento de funcionários, também foram reajustados. A defasagem e as péssimas condições da frota não entram nessa conta. Pelo contrário, as empresas que integram o Consórcio Guaicurus sempre acabam tendo vantagens. A mais recente, em vigor desde 2013, foi a isenção do Imposto sobre Serviço de Qualquer Natureza (ISSN) como contrapartida para baixar o preço da passagem. Ou seja, as empresas continuaram faturando normalmente e somente os cofres públicos foram prejudicados, com perdas de quase R$ 400 mil mensais.
A atual gestão tem o dever de adotar providências urgentes. O prefeito Marcos Trad já anunciou que a isenção do tributo não será renovada e descartou qualquer aumento da tarifa. Há promessa, também, da chegada de 91 novos ônibus ainda neste mês. O receio é de que, mesmo com esse incremento, os problemas não sejam resolvidos. As empresas apenas cumprem suas obrigações com a chegada de novos veículos, pois, pelo contrato de concessão, a frota não pode ter idade superior a 5 anos. Ou seja, continuamos sem previsão da disponibilização de mais linhas. Superlotação e demora devem continuar a fazer parte da rotina dos passageiros.
Esse desleixo e a falta de perspectivas de melhorias têm consequências nefastas sob vários aspectos. O transporte público ineficiente força a população a buscar outros meios para deslocar-se. Assim, aumenta a quantidade de carros e motos circulando nas ruas. O poder público passa a ter novas demandas, como reordenar o trânsito por conta de pontos de congestionamento, executando novas obras, e o asfalto sofre desgaste mais rápido. Até o meio ambiente é castigado. A rápida adesão e preferência pela Uber é explicada também por essa baixa qualidade dos ônibus. Torna-se opção, quase pelo mesmo preço, com muito mais comodidade e celeridade.
A prefeitura tem o dever de reagir na mesma proporção dos problemas. Não basta aplicar multa somente pelos casos mais surpreendentes, como a queda de porta de ônibus. Há absurdos ocorrendo todos os dias e eles precisam ser combatidos com fiscalização eficiente e até rompimento do contrato, caso a inércia continue.