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Confira o editorial desta terça-feira: "Estrelismo inconsequente"

Confira o editorial desta terça-feira: "Estrelismo inconsequente"

Redação

21/03/2017 - 03h00
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Os efeitos da Operação Carne Fraca, da Polícia Federal, já existem e são nefastos para a economia nacional.

A Operação Carne Fraca, da Polícia Federal, desencadeada na sexta-feira, já conseguiu seu lugar na história do Brasil como uma das ações policiais mais inconsequentes de todos os tempos. Os efeitos já existem e são nefastos para a economia nacional. No primeiro dia útil após a ação que resultou em 38 prisões e na interdição de pelo menos três frigoríficos, mercados importantes para a carne brasileira, como China, Coreia do Sul, União Europeia e Chile, suspenderam a compra do produto, que está entre os principais de nossa pauta de exportação. 

Particularmente em Mato Grosso do Sul, estado onde não houve o cumprimento de qualquer mandado, seja de busca e apreensão, seja de prisão, o show pirotécnico da Polícia Federal também deixou seu rastro de pólvora. Frigoríficos locais suspenderam temporariamente os abates, depois que os maiores compradores de carne bovina deram, digamos, uma pausa nos negócios, até que as suspeitas levantadas pelo delegado Mauricio Moscardi Grillo, da Superintendência da PF no Paraná, sejam devidamente apuradas e comprovadas.

Grillo, diga-se de passagem, também integrou a equipe da Operação Lava Jato. Ação policial importante, que desnudou esquemas de corrupção no País, mas que abriu caminho para ações espetaculares e inconsequentes, como as da semana passada. Apesar de a Carne Fraca investigar dezenas de frigoríficos, em somente um foi constatado o uso de carne fora da data de validade e de ingredientes proibidos, como as cabeças de porco inseridas em um tipo de linguiça. Tudo isso em 2014. Segurar a informação por dois anos e permitir que o mesmo frigorífico continuasse comercializando estes produtos é um ato tão irresponsável quanto a ação de marketing na sexta-feira, que já resultou na perda de importantes mercados para a carne brasileira.

O prejuízo para a economia nacional certamente será de cifras bilionárias e, por mais que se reconheça o trabalho investigativo dos policiais federais, os efeitos das suspeitas levantadas contra grupos que estão entre os maiores exportadores, como JBS e BRF, são indissociáveis da atuação dos agentes de polícia. Um pecuarista que deixar de ser remunerado pelo abate de um lote de gado ou um trabalhador de frigorífico que perder emprego por causa da suspensão das importações, certamente, culparão as equipes da Operação Carne Fraca pelo que vier a ocorrer, por mais que eles não duvidem da suspeita de que alguns fiscais agropecuários recebiam propina de empresários do setor.

Claro, no bojo da operação, há fatos que devem ter apuração aprofundada, como o da máfia de fiscais do Ministério da Agricultura, que exigiam propina para a liberação de lotes para exportação ou a fim de autorizar o funcionamento de frigoríficos. Os empresários honestos, de qualquer área de atuação, não só da pecuária, sabem o quanto é difícil trabalhar em um ambiente contaminado por fiscais corruptos. “Só eles ajudavam a empresa, e a empresa não os ajudava”, disse um dos servidores paranaenses investigados pela Polícia Federal, a respeito de um frigorífico que cumpria todas as exigências legais e se recusava a pagar propina.

Operações como esta deveriam ocorrer de forma pontual e menos pirotécnica. Não é com ações midiáticas que se garante o cumprimento da lei penal, e sim com trabalho preciso e cheio de provas. 
 

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