É mais que obrigação prestar contas sobre as receitas e despesas desse hospital que faz parte da história de Campo Grande.
Preocupante e lamentável a tentativa da Santa Casa de forçar a Prefeitura de Campo Grande a conceder o aumento de repasses, negando-se a assinar a contratualização. Sabe-se que a direção da Associação Beneficente, mantenedora do hospital, depende do repasse de R$ 20 milhões mensais, essencial para garantir o pagamento dos funcionários, comprar materiais e assegurar o atendimento.
É utilizada uma perigosa forma de pressão – baseada na chantagem – para conseguir mais R$ 3,5 milhões mensais da administração municipal. A artimanha é ameaçar suspender os atendimentos por falta de recursos. Por isso o alerta feito pelo secretário municipal de Saúde, Marcelo Vilela, de que a “bomba vai explodir”. E o pior é que ela foi meticulosamente armada para produzir estrago e resultar no efeito almejado pela direção: obter mais dinheiro.
Nova rodada de reuniões foi agendada para próxima semana, mas as negociações parecem ainda mais distantes. O acordo está travado e não há mais margem para adiar prazos. Ao menos que o hospital conte com vultosa reserva financeira, algo que seria contraditório com o valor da dívida que continua a aumentar e até mesmo com os apelos por mais recursos. Cabe destacar que, em apenas 1 ano e 4 meses, a dívida da Santa Casa com bancos aumentou R$ 80 milhões, depois da contratação de novo empréstimo com a Caixa Econômica Federal. Os recursos, como já mostrado em reportagem do Correio do Estado, seriam utilizados para reestruturar financeiramente o hospital, quitando outras pendências, e também para investimentos.
Como sempre, falta detalhamento quando o assunto é dinheiro. A Santa Casa insiste em receber mais e mais recursos do poder público, mas precisa justificar esse incremento oferecendo estrutura para melhorar o atendimento. Afinal, esse deve ser o propósito da mantenedora, sob forma de associação civil sem fins lucrativos, reconhecida de utilidade pública e filantrópica, em consonância com o estabelecido no estatuto da instituição. Os princípios que nortearam a criação do maior hospital do Estado, nos idos de 1917, não podem ser esquecidos. Na época, famílias uniram-se na construção da Santa Casa, fazendo doações para ajudar na obra. Com aumento da população, a estrutura seguiu sendo ampliada, mesmo com os problemas financeiros que já existiam.
Por isso, é mais que obrigação prestar contas sobre as receitas e despesas desse hospital que faz parte da história de Campo Grande, construído a partir de esforços da comunidade, e que ainda depende de recursos públicos. A transparência é essencial para pleitear mais verbas, mas ainda não é considerada suficiente. Os valores obtidos com os contratos e alguns salários acima da média permanecem na caixa-preta. Por isso, é compreensível a atitude da prefeitura da Capital em ponderar antes de atender aos pleitos do hospital, que só aumentam a cada ano. Não há orçamento que suporte tantas demandas. Tampouco, deveria haver negociação baseada em ameaças.