Poucos brasileiros tiveram uma vida tão variada e produtiva quanto Roberto de Oliveira Campos, economista, diplomata e político de renome, que ocupou cargos como a presidência do BNDES (1958-1959), o de ministro do Planejamento (1964-1967), ministro da Fazenda (1964) e, mais adiante, o de imortal da Academia Brasileira de Letras (1999-2001). Nascido em Cuiabá, a 17 de abril de 1917, cedo mostrou vocação para tratar de grandes questões internacionais, ingressando na carreira diplomática em 1939 e cursando pós-graduação em Economia na George Washington University. Com apenas 27 anos de idade, participou, ao lado de um dos maiores economistas brasileiros de todos os tempos, Eugênio Gudin, da conferência de Bretton Woods, que estabeleceu os marcos da economia mundial no segundo pós-guerra.
Roberto Campos ficou conhecido na política brasileira como um economista ultraliberal e, na economia, como um político que procurava conciliar interesses nem sempre convergentes. Esses julgamentos não lhe fazem justiça. Ministro da Fazenda e do Planejamento de Castelo Branco participou da criação do Banco Nacional da Habitação (BNH), do Banco Central do Brasil, do FGTS e do Estatuto da Terra, o que atesta sua propensão à participação do Estado na coordenação da economia nacional e em seu planejamento. Se, por um lado, defendia veementemente os princípios econômicos liberais, sabia que a economia brasileira necessitava do Estado para se desenvolver. Como político, sabia o momento de adiar a aplicação de preceitos liberalizantes, reconhecendo a necessidade de adequação às condições de época. Tudo isso sem perder a verve, as críticas certeiras em relação aos opositores, a piada sofisticada.
Suas considerações sobre a esquerda ficaram famosas, assim como a iconoclastia expressa em episódios como a presença de Ernesto “Che” Guevara na Conferência de Punta del Este, em agosto de 1961. Após elogiar a retórica, “menos agressiva do que hiperbólica”, e de criticar a natureza ideológica de suas propostas, observou que o líder argentino-cubano “chegou a predizer que Cuba figuraria em dez anos entre os maiores produtores de aço da América Latina!”, para concluir que Cuba não era suficientemente grande para ter uma economia industrial. Sobre Luiz Inácio Lula da Silva dizia, no contexto das eleições de 1989, que “me parecia um troglodita, líder de um partido que ameaçava tornar-se um ‘fascismo de esquerda’, usando técnicas de patrulhamento e intimidação, além de perfilhar uma ideologia estatizante totalmente anacrônica”.
Controverso e polêmico, Roberto Campos desempenhou com louvor cargos relevantes na política nacional como o de senador por Mato Grosso, pelo PDS, entre 1983 e 1991, e de deputado federal pelo Rio de Janeiro (1991-1999). Como senador por Mato Grosso, concorreu para o levantamento de recursos orçamentários e internacionais voltados para a pavimentação de rodovias, distribuição de energia elétrica e melhorias nas áreas de saúde e habitação popular. Porém, aos 73 anos de idade, o fato de ser sua “base familiar” o Rio de Janeiro, ter passado por um infarto e sentido as constantes viagens entre Cuiabá, Brasília e Rio de Janeiro o levaram a optar pela candidatura neste último. Sobre a vitória nas eleições, reconheceu que somente se elegeu em razão dos 135.400 votos de Amaral Neto, defensor da pena de morte. Sem receios de fazer piada consigo próprio, disse ser naquele episódio um “gigolô da pena de morte”.
Brincadeiras à parte, Roberto Campos nunca deixou de pensar no estado de Mato Grosso e – por que não? – de Mato Grosso do Sul, ao propor soluções para grandes problemas nacionais. Em sua visão, o País precisava de uma nova agenda e de uma nova visão, sintetizada na ideia de realizar um capitalismo democrático. Somente o crescimento econômico é que poderia promover a tão almejada distribuição de renda capaz de dar maior equilíbrio à sociedade brasileira. Ao concluir suas memórias, obra que o levaria à ABL, foi mais uma vez brilhante: “Infelizmente, a minha ‘lanterna na popa’ só ilumina as ondas passadas...”.
No centenário de seu nascimento, nossa humilde homenagem.