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Rolemberg Estevão de Souza: "Relembrar os bons momentos daqueles que partiram"

Diplomata

Redação

28/09/2017 - 02h00
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A sociedade sul-mato-grossense tem refletido, à luz de acontecimentos recentes, sobre o suicídio, tema que já ocupou muitas páginas do conhecimento ocidental, em áreas tão distintas quanto a biologia, a filosofia, a sociologia. Talvez seja inócuo indagar sobre suas causas, pois múltiplas e variadas são suas razões, assim como a trajetória de vida do indivíduo e suas experiên­cias mais íntimas. Há, porém, algum grau de certeza quanto ao estranhamento e à inadequação da realidade em relação às aspirações de quem se vê diante da falta de alternativas, ou então um superdimensionamento dessas mesmas aspirações perante um tipo de sociedade que não tem condições de oferecer respostas. Em qualquer caso, a humildade na tentativa de compreensão é boa conselheira.

A filosofia ressaltou, mais de uma vez, que o homem é o único animal com consciência de sua finitude e que a vida seria um constante “ser-para-a-morte”. Albert Camus (1913-1960), filósofo, escritor e que ganhou o prêmio Nobel de Literatura em 1957, chegou a dizer que a questão mais importante para cada um de nós é saber se a vida vale a pena ou não ser vivida. Nosso horizonte é mais limitado. Nós, que fomos criados na tradição cristã, sabemos que a vida é uma dádiva divina e nos é ensinado que não cabe a ninguém dela se privar. Nesse ponto, talvez a fé tenha que dar lugar à compreensão filosófica para não criticarmos levianamente quem passou por esse tipo de tormento.

Recordo com alegria ter conhecido e compartilhado bons momentos com o senhor Assis Brasil Correa, fazendeiro, líder rural e fundador do Banco Rural de Mato Grosso. Homem alegre e inteligente, gostava de modernidades e foi o primeiro campo-grandense a dirigir um Karman Ghia. Na época, residíamos no Rio de Janeiro, mas, quando visitávamos Campo Grande, era certa a conversa sobre a política nacional e internacional, naqueles duros tempos da guerra fria. Assis Brasil Correa suicidou-se no dia 13 de abril de 1970, data do natalício do admirável industrial Manoel Estevão Júnior, o que me facilita a recordação. Não deixei de indagar, em muitas ocasiões desde esse episódio, como um homem tão inteligente, conhecedor das profundezas da mente humana, pôde – nas palavras do poeta e diplomata João Cabral de Melo Neto – “saltar da ponte da vida”? Hoje não preciso de respostas.

Em minhas andanças pelo mundo, aprendi que as sociedades humanas são ricas e variadas em suas manifestações culturais, mas que os males da modernidade muito as acometem de momentos de perplexidade. A globalização que interligou todas as sociedades do mundo, ao mesmo tempo, exacerbou o consumismo – o “compro, logo existo” de uma pichação de rua – e colocou o “ter” muito acima do “ser”. O diálogo com o próximo, em praça pública ou de modo mais reservado, a solidariedade para os concidadãos campo-grandenses e a valorização das pequenas coisas do cotidiano estão em baixa. Ademais, a política nacional não tem servido de exemplo para quem deseja cultivar valores enlevados e amizades sinceras.

Ao tempo em que expresso meus sentimentos para com os familiares daqueles que ontem e hoje tiveram um dos seus deixando a ponte da vida, relembro novamente João Cabral de Melo Neto e aquele que para mim é seu mais precioso ensinamento: a vida, mesmo essa vida Severina, vale a pena ser vivida!. Precisamos reaprender a ouvir o outro, suas angústias e frustrações, mirar menos as redes sociais e mais as redes humanas, no olho a olho, e “consumirmos” mais valores e menos mercadorias. Valorizar e relembrar os bons momentos daqueles que partiram e regar os nossos jardins para que a vida floresça.

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