Contava-me meu pai, certa vez, que patrão e seu peão, um mestiço paraguaio, aportaram-no numa fazenda para “uma sesteada”, quando o patrão falastrão soltou o verbo contando causos aos residentes e exigia a confirmação de seu empregado que constrangido assentia as suas bazófias. Deixando a fazenda, o peão virou-se para o patrão: “Patron, da próxima vez minta menos esparramado, foi difícil de juntá”... Lembrei-me desse “causo”, na tentativa de compará-lo com outros que circulam nesse sinuoso, tenebroso, nevrálgico e contubérnio cenário da política nacional. Está tudo embaralhado, a ponto de afilhado não mais reconhecer o seu padrinho político.
Melhor não cutucar o momento, há muita cascavel solta nesse deserto de homens e de idéias, pronta para o bote fatal. Cautela e caldo de galinha – dizia minha tataravó – faz bem em instantes como este em que levantamos dúvidas sobre a autenticidade dos políticos.
Então, prefiro voltar aos bons tempos, aqueles a que me referi em escrito há muitos anos já corridos. Já se dizia desde aquela época saudosa, que em política tudo é possível,inclusive o impossível. Não é de se estranhar, mudam os tempos, novos costumes surgem sem observar ou respeitar os valores do passado.
A propósito, lembro-me dos verdes anos de minha mocidade, interessei-me pela política e solidarizei-me União Democrática Nacional, a jamais esquecida UDN, partido de tendência social democrata amalgamada na luta contra o Estado Novo implantado pelo então ditador Getúlio Vargas, importante ressaltar, regime ditatorial que o Brasil não conheceu igual. A conotação social que reconheço na doutrina da UDN deve-se ao fato de, em seu programa, estarem escritas teses do socialismo democrático, com nuances nacionalistas. Aliás como se positivou quando do lançamento do projeto que criou a nossa Petrobrás que teve como um de seus autores o deputado udenista mineiro Gabriel Passos. Não somente o programa mas há que se destacar que o partido, especialmente aqui em Campo Grande, sede de nosso ambiente político, possuía lideranças expressivas no seio da sociedade dentre as quais cito algumas de saudosas memórias como Vespasiano Martins, Fernando Corrêa da Costa, Paulo Coelho Machado, José Fragelli, Marcílio Oliveira Lima, todos que deixaram um lastro de luminosa vida pública.
Naquela época, fins da década de quarenta e toda a de cinqüenta do século passado, pesava sobremaneira a filiação partidária. Filiado à UDN, ao PSD, ao PTB e ao PSB tidos como os partidos de maior agrupamento de filiados, mesmo deles divergindo por circunstâncias ocasionais, era difícil deles afastar, suas cores confundiam-se com as da sua própria família.
Bons tempos aqueles, que não voltarão jamais, quando a fidelidade partidária era princípio inexpugnável. Por certo os daqueles tempos se sentem constrangidos com a fragilidade existente nos partidos atuais. Tal fragilidade é fruto da legislação eleitoral e partidária e causa o triste espetáculo na troca de partidos apenas para atender um vago pretexto. O execrável troca-troca macula o deputado, vereador, senador ou governador, os quais (há exceções e bem fundamentadas), rompem com a vontade popular expressa nas urnas.
Reconheço. Estamos pagando pelas falhas estratégicas cometidas desde a elaboração do projeto da carta constitucional de 1988, cidadã sim em seus aspectos institucionais mas que abriu porteiras para as aberrações que ora se lamenta e que só terão concerto, creio, com a convocação de uma assembléia nacional constituinte exclusiva, com o toque especial de que os atuais parlamentares dela não participe. Claro, por motivos óbvios.
Para encerrar. Participei no último domingo de um agradável encontro social reunindo pessoas que admiro e prezo. O assunto dominante foi sobre a política atual, sobre a qual malsinam desejosos de reabilitá-la no conceito público. Em parte dou-lhes razão. Alguns dos remédios oferecidos contém doses reacionárias que alienam ou matam a boa política. Como disse o mestre em ciência política, Murilo de Aragão, deve-se sim participar da política, não se afastar dela como foi o caminho percorrido por expressiva parte da comunhão brasileira. Pois tudo que hoje se lamenta é porque por tempos se esqueceu a máxima de Platão : “A punição que os bons sofrem quando se recusam a agir é viver sob o governo dos maus”.