Houve um tempo em que para alguém ser considerado cantor ou cantora era essencial que essa pessoa tivesse uma voz, que, embora nem sempre fosse extremamente bela, combinasse afinação, harmonia e ritmo em dose certa, sabendo mesclar os altos e baixos melódicos sem exageros e sem deixar o ouvinte com a sensação de que seus tímpanos iriam explodir na próxima combinação de acordes. Naquela época, o público se apaixonava pela voz de seus ídolos e raramente tinha a oportunidade de conhecê-los fisicamente. O máximo a que poderia aspirar era ver o cantor, cantora ou grupo de sua preferência na capa do disco ou nas páginas de alguma revista.
Contudo havia também artistas talentosos que, conhecedores de seus dotes vocais, encantavam os ouvintes com a extrema capacidade de modular a voz e alcançar timbres inimagináveis para a maioria dos seres humanos comuns. Paralelamente a isso, também existiam aqueles casos em que, mesmo sem ter uma estarrecedora capacidade vocal, os cantores apostavam em um repertório que primava pelas soluções poéticas, dando vida às composições elaboradas com todo cuidado por compositores que dominavam a arte de transformar o cotidiano aparentemente sáfaro em preciosidades musicais que se eternizavam na memória de pessoas que nem sempre tinham acesso a sofisticados aparelhos de reprodução sonora.
Essas parcerias entre vozes perfeitas (ou quase perfeitas) e letras bem elaboradas renderam momentos ímpares na história da música de qualquer nação. Alguns compositores foram justamente alçados à condição de escultores de palavras, e muitos intérpretes embalaram gerações e mais gerações, transformando suas vozes e suas interpretações em símbolos de épocas que se eternizam com a sensação de novidade e de renovação.
No entanto, nas últimas décadas, para ser cantor ou cantora, ninguém mais precisa ter apurada técnica vocal, conhecer os rudimentos de canto ou, pelo menos, se debruçar sobre os grandes clássicos da música popular ou erudita. Alguns confundiram a arte de exprimir-se por meio da música com o desastre de espremer-se durante a música. O acesso a equipamentos que permitem a manipulação das vozes fez com que técnicos, cada vez mais competentes, conseguissem transformar notas destoantes em sucessos tão imediatos quanto efêmeros. A exposição constante nas diversas mídias conseguiu o feito de transformar em fenômenos musicais pessoas com pouco ou nenhum talento vocal, mas com boa aparência, físico privilegiado e empresários ávidos por mais sucesso.
Da mesma forma com que saber cantar deixou de ser uma condição indispensável para transformar alguém em cantor, a tessitura artística das letras das músicas também passou a ser algo supérfluo, em alguns casos até mesmo um obstáculo para os postulantes ao cargo de ídolo musical da próxima temporada. Basta combinar palavras de ordem, de preferência com duplo ou triplo sentido, criar uma sequência que sirva como coreografia ou repetir insistentemente sons que combinem com os arranjos previamente elaborados para que esses autodeclarados compositores consigam emplacar mais um sucesso, que será esquecido tão logo outra composição mais pegajosa apareça no mercado.
Com uma agenda sempre lotada, ingressos esgotados e uma multidão de fãs, tais cantores, durantes os shows ao vivo, nem mesmo precisam saber cantar as próprias músicas. Basta entoar as primeiras palavras, levantar o microfone e ouvir o público anestesiado cantando as canções, às vezes, até de modo melhor do que o original. Com os braços erguidos, lágrimas escorrendo pelas faces e com a coreografia devidamente decorada, o público vai à loucura. Nem mesmo dá tempo de perceber que os ídolos, nos raros momentos em que decidem cantar, desafinam, atravessam e saem do tom, tendoinclusive muitas vezes que ler as cinco ou seis palavras que formam a graciosa letra da música.
Mas isso não interessa, pois, para quem pouco sabe de harmonia, o importante é que também exista uma época em que berros, gritos, gemidos, grunhidos e vozes descompassadas sejam confundidas com música.