Os equipamentos encaixotados nos hospitais já foram licitados, comprados e devidamente pagos. Só não funcionam por descaso.
Uma das palavras mais repetidas em toda propaganda eleitoral desta década por candidatos para qualquer cargo executivo, seja de prefeito, governador de Estado ou mesmo de presidente da República, é “eficiência”.
Independentemente do partido político de qualquer postulante a um cargo com essas características, em algum momento durante as últimas campanhas, esse candidato prometeu uma gestão eficiente. O termo ganhou importância ainda maior depois do início da crise econômica, em 2015.
Com o dinheiro público cada vez mais escasso por causa das sucessivas quedas na arrecadação no período, o uso racional dos recursos virou o novo clichê dos discursos.
Mas, como a maioria dos atos dos políticos brasileiros, a promessa por eficiência não saiu do palanque ou do horário eleitoral gratuito na televisão e no rádio. Foi só mais uma promessa não cumprida.
Na edição de ontem, mostramos levantamento do Sistema Único de Saúde (SUS) que denuncia o mau uso dos equipamentos hospitalares em todo o Estado de Mato Grosso do Sul.
Atualmente, são 938 máquinas essenciais para a realização de exames e procedimentos guardadas nos mesmos caixotes em que chegaram. O problema ocorre em quase todos os hospitais públicos, ou naqueles que atendem pelo SUS.
Para se ter uma ideia do desperdício dos recursos públicos, somente em duas das maiores unidades hospitalares do Estado, a Santa Casa e o Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian, os aparelhos encaixotados custaram em torno de R$ 17 milhões.
Para pacientes da alta complexidade que precisam de exames modernos de imagem, ou da realização de procedimentos neurológicos, cardiológicos, entre outros, um descaso como esse constatado no levantamento é, no mínimo, um desaforo. Mas é muito mais: é improbidade administrativa em boa parte dos casos.
São equipamentos já licitados, comprados e pagos. Só não são colocados em operação, por puro e simples descaso das autoridades do setor de saúde dos três níveis de governo – e em algumas situações específicas, de infraestrutura. Fica muito difícil entender por que algo que já está comprado e entregue não pode entrar em operação. O mais difícil já foi feito, não é mesmo?
Se em algum dia os gestores prometeram eficiência ao público, esse excesso de aparelhos encaixotados é a grande demonstração de que ainda vai demorar, e muito, para que a promessa seja cumprida.
Enquanto as filas por exames e cirurgias são intermináveis e muitos pacientes morrem à espera dos procedimentos, itens que facilitariam o acesso dessas pessoas à saúde pública são desprezados pelas autoridades. Isso é lamentável. Para mudar isso, os diretores de hospitais e gestores da área de saúde deveriam começar ligando esses aparelhos, que devem servir ao público, e não às traças e moscas.