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OPINIÃO

Nanci Leonzo: "Pretensa biografia de Filinto Müller"

Professora titular da UFMS

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A Editora Civilização Brasileira lançou, em fins de 2017, sob o título “O Homem Mais Perigoso do País”, uma biografia de Filinto Müller (1900-1973), um livro escrito por um sociólogo ou “criminalista qualitativo” –  como ele próprio se intitula –  de nome R.S. Rose, oriundo dos Estados Unidos. O jornalista Augusto Nunes, ao resenhá-lo na Revista Veja (edição 2564, de 10 de janeiro de 2018, p. 94-95), a considerou relevante em vários aspectos, chegando a comparar o biografado com o carrasco alemão Adolf Eichmann, cujo julgamento, apelação e execução foram perfeitamente descritos e interpretados pela filósofa alemã Hannah Arendt. Nunes denominou Rose um “brasilianista americano”, o que efetivamente não corresponde à realidade, tendo-se em vista estudos atuais sobre o assunto. 

Partindo, portanto, do pressuposto de que Rose não é – e nunca foi – um historiador brasilianista, cabe apontar alguns procedimentos que muito comprometeram o conteúdo do referido livro, fruto de entrevistas e pesquisas em arquivos e bibliotecas, mas que, na verdade, em muitos aspectos é eivado de subjetivismos. Um dos procedimentos inaceitáveis de Rose é o uso de um texto da Wikipédia sobre Mato Grosso, ao discorrer sobre os primórdios da família Müller em Cuiabá. Um historiador de ofício jamais faria uso dessa pretensa “fonte”, pois conhece seus limites e, principalmente, a falta de credibilidade que a cerca. Para os leigos, basta ressaltar que qualquer um pode alterar o conteúdo de um “verbete”, mantendo-se no anonimato. Muito mais grave, porém, é o uso constante de argumentos inadequados, recortados e utilizados totalmente fora de contexto. Ao longo do livro, encontrei várias passagens extemporâneas, mas uma delas não poderia deixar de ser mencionada. Após questionar, no capítulo final, se Filinto Müller teria sido o homem mais perigoso do País ou apenas um “fisiologista” ou “bajulador”, Rose levantou a hipótese de que ele, apesar de conhecer algo sobre o comunismo, “teria deixado escapar” um famoso “dictum” de Karl Marx contido no primeiro capítulo do “18 de Brumário de Louis Bonaparte” (1852), qual seja, “Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem segundo a sua livre vontade (...)”. Se o norte-americano tivesse lido o prefácio de Engels à terceira edição alemã dessa obra (1885), não cometeria tal desatino. 

Um dos maiores deslizes de Rose foi, em minha opinião, culpar, utilizando David Nasser e Assis Chateaubriand, os mato-grossenses pela eleição de um “criminoso”, no caso Filinto  Müller,  para o Senado brasileiro. Violou a memória local, operando com a pesquisa histórica a partir de uma pré-fabricada e falsa lógica do processo, buscando, apenas, dar relevo ao fator responsabilidade individual. Provavelmente, ele não sabia como concluir a biografia de um dos mais significativos representantes do que denominou “ditadura dos militares sabichões”. Recorrendo gratuitamente a Marx, conseguiu, apenas, reforçar seu objetivo de instrumentalizar o passado a seu bel-prazer, ignorando a memória mato-grossense e as inócuas polêmicas que envolveram, em Cuiabá e no Senado Federal, a figura do chefe de polícia de Vargas. Evitou dilemas que, por certo, colocariam em suspeição boa parte de seus argumentos. De tudo, fica a certeza de que a biografia de Filinto Müller ainda não foi escrita. Aliás, como fazê-lo sem confrontar Memória e História, questão presente, ainda nos dias de hoje, nos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.

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