Terminal Intermodal de Campo Grande é mais um exemplo dos reflexos da falta de planejamento: milhões de reais despendidos em um projeto hoje considerado inviável.
Junte uma boa dose de recursos públicos à falta de planejamento e ânsia de garantir investimentos, acrescente uma pitada de falta de controle eficaz e está aí a receita para criar um elefante branco. O Terminal Intermodal de Campo Grande pode ser belo exemplo dessa perigosa mistura. O projeto foi iniciado há mais de uma década, ainda em 2007, com o objetivo de melhorar a logística da Capital e, consequentemente, atrair novos investidores. Porém, os obstáculos surgiram já nos primeiros anos, entre eles, irregularidades na execução, detectadas pelo Tribunal de Contas da União (TCU); crime ambiental, apontado pelo Ministério Público Estadual; e dezenas de prorrogações de prazo e pedidos de aditivos. A obra ficou mais tempo parada do que em execução. São seis anos de abandono de um projeto que já consumiu R$ 23 milhões em recursos públicos e que está tão perto de ser concluído, como mostra reportagem desta sexta-feira do Correio do Estado.
As receitas dos elefantes brancos são semelhantes, com pequenas variações de acordo com a região, mas parece funcionar muito bem para boa parte das obras que envolvem dinheiro público. Por aqui, Aquário do Pantanal e Anel Viário estão entre as principais, citando somente as maiores e de Campo Grande. Todas obras caríssimas, já em processo adiantado de construção e paradas por conta de decisões ruins no passado. Além dos problemas já conhecidos pelos brasileiros – desperdício e desvio de dinheiro público, corrupção, excesso de burocracia –, ainda falta continuidade entre governos. Historicamente, uma gestão, se rival à anterior, opta por não dar sequência ao trabalho já iniciado e coloca em prática os seus próprios projetos. Com isso, a quantidade de elefantes brancos só faz crescer. A negligência com o dinheiro público e a falta de prioridades não só preocupam como revoltam. Enquanto atrasos deveriam ser esporádicos, em terras brasileiras são regras. Raridade é ver obra com recurso público começar e terminar dentro do prazo anunciado.
O problema é que ficar parado também custa. Em seis anos, desde a paralisação das obras do Terminal Intermodal, os preços mudaram muito, além disso, debaixo de sol e chuva, muita coisa ali terá de ser recuperada, quando não refeita por completo. Mais dinheiro além do previsto e, assim, vira um saco sem fundo. Isso também pode ser aplicado ao Anel Viário – tomado pelos buracos sem nunca ter sido usado – e ao Aquário do Pantanal. Para o caso do Terminal Intermodal, a prefeitura tem duas opções: abandonar o projeto com cerca de 80% da execução concluída ou retomá-lo sem a certeza de sua viabilidade. A primeira alternativa é um descaso total com o dinheiro público, praticamente o mesmo que destruir R$ 23 milhões. A segunda opção seria a menos ruim e foi ela a escolhida pela prefeitura. Agora, caberá à Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico tentar viabilizar e dar operacionalidade a esse espaço. Uma das alternativas seria buscar parcerias para o empreendimento, entre elas, com a Infraero. A aviação pode ser a salvação do projeto do Porto Seco mais seco que já se viu. Sem a hidrovia e com uma ferrovia agonizando, o terminal conta somente com o modal rodoviário como alternativa. O transporte aéreo seria a segunda opção, com foco principalmente no escoamento de grãos. Como será essa parceria sem que o projeto seja encarecido ainda é um mistério, porém, ela é essencial tanto em respeito à população como para o desenvolvimento econômico de Campo Grande.