Levantamento feito pela Confederação Nacional da Indústria aponta o que há muito tempo é sabido em MS: a nossa ferrovia está sucateada.
A greve dos caminhoneiros colocou em xeque a decisão do governo federal, ainda na metade do século passado, de favorecer somente o transporte rodoviário. Estradas foram abertas por todo o País e a indústria automobilista foi incentivada, enquanto os trens, que garantiram o nascimento e o desenvolvimento de tantas regiões – incluindo Mato Grosso do Sul –, foram deixados de lado. Por dez dias, os caminhoneiros cruzaram os braços e o País entrou em desespero, sem nenhuma alternativa a não ser negociar e apoiar. Os reflexos dessa greve foram de cifras astronômicas e de prejuízos nos mais diversificados setores. Mas, se houve lado positivo – além das conquistas da categoria –, foi o fato de se reacender a discussão sobre a necessidade de se investir em outros modais. Estudo elaborado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), publicado ontem em reportagem do Correio do Estado, mostra o que há muito tempo é sabido por aqui: a nossa ferrovia está sucateada. Mesmo assim, os números impressionam. Enquanto no restante do País, mais de 30% da extensão dos trilhos está inutilizada e 23%, sem condições de tráfego, na Malha Oeste, que corta Mato Grosso do Sul com cerca de mil quilômetros de extensão, o sucateamento chega a 60%.
A malha ferroviária brasileira para o transporte de cargas e passageiros gira em torno de 30 mil quilômetros, resultado que consegue ser menor que a Argentina, que é do tamanho do Amazonas e do Pará juntos, mas tem 36,9 mil quilômetros. O preocupante é que, mais do que não investir na expansão da malha, o Brasil deixou que o pouco feito fosse sucateado. Sem os olhos direcionados para o transporte ferroviário nem uma política voltada para o incentivo desse tipo de modal e a (indispensável) fiscalização do governo federal, as empresas que assumiram as malhas do País abriram mão até mesmo da manutenção necessária para manter os trilhos em condições de uso. No caso de Mato Grosso do Sul, quando o governo se deu conta do estrago, já era tarde.
A Rumo Logística, ao adquirir a antiga ALL, na verdade, comprou prejuízo. Há anos, a ferrovia já não pode operar o transporte de combustíveis por conta do risco de acidentes, por tamanha degradação dos trilhos e das dormentes. São irrisórias as operações no Estado, com exceção do transporte de toda a produção de celulose da Fibria, por Aparecida do Taboado (divisa com o Estado de São Paulo). A expectativa é de que esse quadro obscuro, pelo menos, ganhe pontos de luz a partir da prorrogação antecipada dos contratos de concessão. Mas todas as apostas para ressuscitar a ferrovia de Mato Grosso do Sul estão no projeto TransAmericana. O plano é ousado: ligar o Porto de Santos (SP) ao Porto de Ilo (Peru), fazendo de Mato Grosso do Sul um grande entreposto. Na mesma altura, está o valor do investimento: R$ 23 bilhões. Em contrapartida, os ganhos em competitividade são de igual proporção. Passou da hora de o Brasil voltar para os trilhos.